O porto seguro da Shell no pré-sal brasileiro
Em meio à volatilidade global, a Shell acelera investimentos no Brasil, consolidando o país como um dos pilares de sua estratégia mundial de energia e segurança.
Cristiano Pinto da Costa, presidente da Shell Brasil. (Foto: Divulgação)
O tabuleiro global de energia passa por uma de suas reconfigurações mais profundas das últimas décadas. Com o Oriente Médio sob tensão e as rotas logísticas tradicionais pressionadas, a segurança no fornecimento tornou-se o ativo mais valioso do mercado. Nesse cenário, o Brasil deixou de ser apenas uma promessa para se tornar um porto seguro — e a Shell, com mais de um século de atuação no país, é a empresa que melhor traduz essa confiança em números.
No último período, a companhia rompeu seus próprios marcos históricos por aqui. O investimento saltou para R$ 12,5 bilhões, superando a média anual que, até então, orbitava a casa de US$ 1 bilhão. O aporte reflete um recorde operacional: a Shell alcançou um pico de produção diária próximo a 500 mil barris de óleo equivalente.
“O Brasil é visto como fonte segura de petróleo para o mundo”, afirma Cristiano Pinto da Costa, presidente da Shell Brasil. Para o executivo, o isolamento geográfico do país em relação aos eixos de conflito aumenta a atratividade dos ativos nacionais, embora o momento exija precisão cirúrgica na gestão. “Ainda é cedo para estimar as cotações, mas a expectativa é de preços mais altos se a infraestrutura de óleo e gás no Oriente Médio for impactada”, pondera.
Aposta nos ativos
A estratégia da Shell não é apenas produzir mais, mas produzir melhor. A companhia tem concentrado sua energia no pré-sal, onde a produtividade por poço é uma das maiores do planeta. Recentemente, a Shell reforçou seu peso nos campos de Atapu e Mero, dois ativos offshore altamente competitivos.
Em Mero, a capacidade instalada já atinge 770 mil barris por dia. Com a ampliação da participação da Shell em Atapu — prevista para ser efetivada em 2027 —, a petroleira garante reservas estratégicas para as próximas décadas. O movimento é uma peça-chave do plano global do grupo: manter volumes elevados de produção, mas com menor intensidade de carbono.
Águas profundas
A operação da Shell no campo de Lapa, na Bacia de Santos, serve como exemplo dessa busca por eficiência. Com o início da produção em Lapa Sudoeste, a empresa adicionará 25 mil barris por dia ao pico de produção, aproveitando a infraestrutura já existente (o navio-plataforma FPSO).
É o que Cristiano Pinto da Costa chama de "disciplina na alocação de capital". Segundo ele, o projeto entrega resultados com baixo custo marginal. “Desenvolvemos reservas adicionais aproveitando a capacidade disponível. Isso fortalece o valor de longo prazo do ativo e reforça nossa geração de caixa, entregando barris competitivos em uma área central para a Shell global”, explica o presidente.
Ao fim, o balanço da Shell no Brasil revela uma simbiose estratégica: o país oferece as reservas e a estabilidade necessárias em um mundo instável, enquanto a companhia aporta a tecnologia e o capital para transformar esse potencial em segurança energética global.
Novas fronteiras e parcerias
A Shell também avança em novas frentes exploratórias. A companhia avalia a perfuração de novos poços na Bacia de Santos nos próximos anos e ampliou significativamente seu portfólio exploratório, passando de cerca de 15 blocos em 2021 para aproximadamente 50 áreas atualmente. Além disso, mantém participação em ativos de longo prazo, como blocos na Bacia de Pelotas, com decisões previstas mais para o fim da década. Outro movimento estratégico foi a entrada da KUFPEC como parceira no Projeto Orca, no pré-sal. A Shell vendeu 20% de participação, mantendo 50% e a operação do ativo. O projeto, com início de produção previsto para 2029, deve produzir até 120 mil barris por dia.