IA muda o jogo e força C-level a redesenhar a base física da economia digital
Data centers, cabos submarinos, energia limpa, governança de dados e automação entram na agenda estratégica do C-level para sustentar o avanço da IA no Brasil.
Sam Altman, CEO da OpenAI. (Foto: Divulgação)
A economia digital brasileira vive um ponto de inflexão. A corrida pela inteligência artificial, pela computação de alto desempenho e pela hiperconectividade global está deslocando o debate estratégico do software para a base física que sustenta a inovação. Data centers, energia dedicada, cabos submarinos, redes elétricas resilientes e governança de dados deixaram de ser temas operacionais para ocupar o centro das decisões do C-level. A pergunta que hoje move conselhos de administração não é apenas como adotar IA, mas se existe infraestrutura capaz de escalar essa transformação com segurança, previsibilidade regulatória e sustentabilidade econômica.
Nuvem e GenAI: a corrida por escala
A pressão por capacidade computacional cresce em ritmo acelerado. A Amazon Web Services (AWS) vem liderando esse movimento no país. Segundo o relatório ISG Provider Lens AWS Ecosystem Partners 2025, a companhia consolida um novo ciclo de modernização digital no Brasil, impulsionado pelo avanço de soluções como Amazon Bedrock, Amazon Q e Amazon Nova em setores como finanças, manufatura, varejo e telecomunicações. A empresa anunciou investimento adicional de US$ 100 milhões no Generative AI Innovation Center para acelerar a adoção de GenAI e agentes inteligentes, reforçando a convergência entre modernização de legados e inteligência artificial.
Esse avanço tecnológico, porém, esbarra em desafios estruturais. A Microsoft vem enfatizando que a expansão da infraestrutura digital precisa estar ancorada em energia limpa e eficiência operacional. Recentemente, a companhia destacou seis projetos que contribuíram para o atingimento de sua meta de energia renovável na América Latina, reforçando contratos de compra de energia limpa e iniciativas de eficiência energética em data centers.
Em paralelo, uma parceria da Microsoft com a Hitachi Energy amplia o uso de inteligência artificial e dados para gestão preditiva de ativos críticos. “Os operadores de infraestrutura crítica precisam de informações que lhes permitam agir. Juntamente com a Hitachi Energy, estamos combinando IA, nuvem e sistemas empresariais para ajudar as organizações a migrarem da manutenção reativa para operações preditivas, melhorando a confiabilidade, a segurança e o valor a longo prazo da infraestrutura da qual a sociedade depende”, afirma Dayan Rodriguez, Vice-Presidente Corporativo de Manufatura e Mobilidade da Microsoft.
Andy Jassy, CEO da Amazon. (Foto: Divulgação)
Novos gargalos
No campo da infraestrutura física para data centers, a Huawei lançou no Brasil o PowerPOD 3.0, sistema pré-fabricado que reduz em até 75% o tempo de implantação e alcança 99% de eficiência energética no modo S-ECO. A solução integra UPS, distribuição de baixa tensão e monitoramento inteligente em um único módulo escalável de até 2,4 MW, permitindo expansão conforme a demanda cresce. “O PowerPOD 3.0 resolve os principais desafios enfrentados pelos operadores de data centers atualmente, com uma proposta de integração, inteligência e sustentabilidade, abrindo caminho para uma nova geração de data centers de alta performance e baixo carbono”, explica Cui Xinmin, CEO da Huawei Digital Power Brasil. A compatibilidade com energia solar e futura integração com sistemas de armazenamento reforçam a tendência de descarbonização do setor.
Se energia e eficiência são pilares físicos, governança e privacidade tornaram-se o eixo invisível da infraestrutura digital. O Data and Privacy Benchmark Study 2026 da Cisco revela que 95% das organizações no Brasil ampliaram seus programas de privacidade e 91% planejam novos investimentos. O estudo, que ouviu 5.200 profissionais de tecnologia e segurança digital em 12 países, aponta que 73% das empresas brasileiras enfrentam dificuldade para acessar dados relevantes e de alta qualidade, um entrave direto à escalabilidade da IA. “A IA está forçando uma mudança fundamental no panorama de dados, exigindo uma governança holística de todos os dados - pessoais e não pessoais”, diz Jen Yokoyama, vice-presidente sênior de Inovação Jurídica e Estratégia da Cisco. “As organizações precisam compreender profundamente e estruturar seus dados para garantir que toda decisão automatizada seja explicável. Não se trata apenas de compliance, mas de um motor essencial de escala para a inovação em IA.”
Menos código, mais negócio
Em outro sentido, o termo “automação de software com IA” tornou-se comum, mas seu significado prático varia muito. Para a Stefanini Technology, essa automação não é apenas um recurso técnico, mas um novo modelo de entrega, onde a inteligência artificial deixa de ser uma ferramenta auxiliar e passa a operar como um time autônomo e colaborativo, reduzindo a dependência humana em atividades operacionais e abrindo espaço para decisões mais estratégicas.
Enquanto a maioria das empresas ainda opera com ferramentas de IA que oferecem assistência parcial (como copilots ou geração de código via prompt), a consultoria tech global já atua com estruturas de orquestração inteligente, onde agentes autônomos executam etapas completas da esteira de desenvolvimento, desde o entendimento de requisitos até a entrega e manutenção do sistema, com envolvimento humano apenas nos pontos de validação e decisão estratégica.
“Estamos saindo da lógica do desenvolvedor como centro e colocando o foco onde ele deve estar: no negócio. Hoje, temos agentes que fazem entrevistas com stakeholders, analisam requisitos, propõem soluções e automatizam grande parte do processo. O humano entra para guiar e validar, como um copiloto corporativo que define o destino, mas deixa a IA dirigir”, destaca Marcus Piombo, CEO Brasil do Grupo Stefanini.