Priscyla Laham lidera nova fase da Microsoft com protagonismo do Brasil
Executiva conduz novos investimentos em nuvem e IA, além de reforçar o peso do país na estratégia global da companhia.
Priscyla Laham, presidente da Microsoft no Brasil. (Foto: Divulgação)
Em um momento em que tecnologia e competitividade caminham lado a lado, a Microsoft tem ampliado investimentos não apenas em infraestrutura, mas também em capacitação e talentos. “O Brasil é um mercado relevante”, resume Priscyla Laham, presidente da operação local da companhia. A construção de data centers e o avanço da inteligência artificial no ambiente corporativo refletem a estratégia da empresa de ampliar e apoiar a transformação dos negócios no país.
A executiva assumiu a presidência em janeiro de 2025, mas sua relação com a companhia já dura cerca de 25 anos, com uma breve passagem pela Meta, quando ocupou a diretoria entre 2016 e 2017. Formada em marketing e com background em negócios, construiu uma carreira que atravessa áreas de produto, serviços digitais, comercial e ecossistema de parceiros. Liderou iniciativas que vão do lançamento de consoles de games na América Latina à expansão de soluções em nuvem e IA.
A própria executiva define sua trajetória como uma jornada de aprendizado. Começou em marketing, migrou para produtos como MSN, Messenger e Hotmail, passou pela divisão de Windows e consolidou experiência na área comercial, atendendo mercados B2B e B2C. Nos últimos anos, aprofundou-se em nuvem, trabalhando inclusive nos Estados Unidos com empresas de software e soluções corporativas. “No final das contas, o segredo do sucesso é aprender e ser intencional na sua jornada”, afirma.
À frente da subsidiária brasileira de uma das empresas mais valiosas do mundo, Priscyla define sua missão em termos quase pessoais. “Eu sempre falo que tenho duas paixões: representar o Brasil para a Microsoft e representar a Microsoft no Brasil.” A frase resume um estilo de liderança que combina pragmatismo de negócios e valorização de pessoas. Nesta entrevista ela fala do atual ciclo de transformação tecnológica acelerada e como sua gestão busca alinhar crescimento, capacitação e protagonismo do país na economia digital.
REVISTA LIDE: Como você avalia o mercado brasileiro neste atual momento econômico?
Priscyla Laham: Tenho visto muitas oportunidades. Trabalhando próximo aos clientes, percebemos um interesse crescente em entender como a inteligência artificial pode transformar os negócios, não só na parte de eficiência e produtividade, mas também em inovação e em mudar o engajamento com os clientes.
Existe, no mercado, um forte desejo por personalização, por hiperpersonalização, e isso pode ser amplamente potencializado pela IA. Esses primeiros meses têm sido interessantes para ver o quanto o tema é atraente e o quanto isso pode realmente transformar os negócios dos nossos clientes.
Também há um aspecto de competitividade do Brasil que me encanta. A inteligência artificial pode ser um ponto de inflexão para tornar o país mais competitivo.
REVISTA LIDE: A Microsoft anunciou no final de 2024 um investimento de R$ 14,7 bilhões no país, voltado a nuvem e inteligência artificial. Como esses recursos estão sendo aplicados?
Priscyla Laham: Estamos ampliando a infraestrutura de nuvem e construindo novos data centers no Brasil. O objetivo é empoderar outras empresas a desenvolverem novos serviços com inteligência artificial, auxiliados pela nuvem.
O Brasil é um país com matriz energética limpa e disponibilidade de energia. Ter data centers locais significa atender clientes a partir do próprio país, o que reforça nosso compromisso de longo prazo com o mercado brasileiro.
REVISTA LIDE: A IA pode substituir profissionais ou tende a criar novas carreiras?
Priscyla Laham: Talvez vejamos a substituição de determinadas carreiras ou funções com o uso de inteligência artificial. Mas vivemos em um mundo de humanos para humanos. Não faz sentido pensar que as máquinas vão dominar tudo.
Pesquisas como o Work Trend Index mostram que 72% dos profissionais no Brasil se sentem cansados ou sobrecarregados por tarefas repetitivas. Através da nossa telemetria, com M365, Outlook e toda a nossa plataforma Teams, observamos que muitos usuários acessam e-mails aos sábados e domingos de manhã. O estudo fala bastante sobre essa jornada infinita.
Com o envelhecimento da população e esse cenário de exaustão, a IA pode atuar como copiloto, ampliando a capacidade humana e melhorando a qualidade do trabalho. Mas isso exige capacitação contínua.
REVISTA LIDE: Quais profissões devem ganhar espaço no futuro?
Priscyla Laham: Já vemos especialistas de IA aplicados a áreas como marketing e finanças. São pessoas que pensam como desenvolver agentes autônomos ou soluções de inteligência artificial para empresas. Essas profissões começam a surgir com mais força.
Uma função interessante é a do “gestor de agentes”, que administra agentes autônomos especializados em tarefas como revisão de notas fiscais. Por que ter um humano revisando notas fiscais e encontrando discrepâncias? Isso pode ser feito por um agente, deixando para o humano o que exige intervenção, criatividade e engenhosidade.
REVISTA LIDE: Há características humanas que a IA não consegue replicar?
Priscyla Laham: Criatividade, engenhosidade, empatia e visão ampliada são humanas. Gestão de pessoas também é algo essencialmente humano. É óbvio que teremos times híbridos, entre pessoas e agentes, mas essas qualidades continuam determinantes. Então, não. Não vejo uma máquina substituindo um humano desse ponto de vista. Isso não está no meu repertório de pensamentos.
REVISTA LIDE: Qual o papel da operação brasileira nos negócios globais da Microsoft?
Priscyla Laham: Pelo volume de investimentos, fica claro que o Brasil é estratégico e representa uma grande oportunidade para a Microsoft. Dentro da estrutura das Américas, somos um mercado relevante. É por isso que investimos em infraestrutura, capacitação e pessoas. Temos um time muito preparado para apoiar a transformação digital e aumentar a competitividade do país.
REVISTA LIDE: Que transformações mais marcaram seus 25 anos na empresa?
Priscyla Laham: A Microsoft nasceu com a missão de colocar um computador em cada mesa e cumpriu isso ao longo da história. Passamos pela revolução da internet e pelo mobile, uma área em que a Microsoft não pegou o bonde naquele momento, depois pela nuvem e agora pela IA.
Agora, estamos liderando essa onda de IA, sendo uma das primeiras empresas a embarcar de forma ampla e a tornar o portfólio empoderado por inteligência artificial. Vi muitas fases da empresa, e o que mais admiro é a capacidade de reinvenção. Empresas e profissionais precisam se reinventar continuamente. A Microsoft renovou sua missão para empoderar pessoas e organizações a alcançar mais, sempre via tecnologia e impacto social.
REVISTA LIDE: Como você define a cultura da Microsoft?
Priscyla Laham: Destaco dois pilares. O primeiro é o Growth Mindset, a mentalidade de crescimento. É a permissão de dizer “ainda não sei” e estar disposto a aprender. Ninguém inova se estiver preocupado apenas em parecer inteligente. A cultura vem com o “eu ainda não sei” e o “eu posso aprender em qualquer idade, em qualquer momento”.
O segundo é a diversidade e inclusão. Quanto mais diversa e incluída é a equipe, maior a capacidade de representar a pluralidade do mundo em que vivemos. Quando pensamos em uma empresa que desenvolve inteligência artificial, inclusão e diversidade são fundamentais para gerar impacto positivo.