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Gestão

O novo mantra dos CEOs: como a cobrança por resultados substituiu os mimos corporativos

Pressionados por competitividade e respaldados pelas transformações no mercado de trabalho, líderes de gigantes como Unilever, Nestlé e Meta mudam o tom da liderança e priorizam a alta performance.

21 de maio de 2026 por LIDE

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Fernando Fernandez,CEO da Unilever. (Foto: Reprodução)

A forma como o CEO da Unilever, Fernando Fernandez, inicia cada reunião na fabricante de bens de consumo traduz a nova mentalidade de lideranças que consideram que suas empresas perderam competitividade no mercado global.

“Antes de dizer olá, eu digo: ‘Crescimento de volume, mix positivo, expansão consistente de margem para crescimento do lucro em moeda forte’”, afirmou o executivo em uma entrevista gravada. Segundo o executivo, embora seja uma saudação incomum, a abordagem é uma ferramenta de gestão para garantir que as equipes assumam total responsabilidade pelos resultados financeiros.

De acordo com o InvestNews, essa postura rígida marca o fim da cultura corporativa da década passada, que era caracterizada pela escassez de mão de obra e por políticas de forte empatia e acolhimento. Com o avanço da inteligência artificial e o consequente enfraquecimento do mercado de trabalho para profissionais de escritório (white-collars), o poder de barganha retornou aos empregadores. Como resultado, CEOs de múltiplos setores passaram a verbalizar abertamente o foco em cobrança — um discurso que antes ficava restrito aos bastidores e que agora vem acompanhado de demissões em massa.

Essa mudança de tom é visível em várias das maiores empresas do mundo:

  • Nestlé: O executivo Philipp Navratil prometeu a investidores ser "implacável" na avaliação de talentos. A companhia realizou o corte de 16 mil empregos.

  • Citigroup: A CEO Jane Fraser alertou as equipes de que as avaliações internas serão baseadas estritamente em resultados entregues, e não no esforço despendido.

  • Meta: Mark Zuckerberg orientou os funcionários a "apertarem os cintos". A empresa reduziu 600 vagas na divisão de IA, cortou 10% do seu quadro total de trabalhadores e congelou a abertura de 6 mil vagas.

  • Novo Nordisk: A farmacêutica adotou o mesmo tom de cobrança e realizou a demissão de 9 mil funcionários.

  • 3M, HSBC e Banco Popular: Líderes dessas instituições também reforçaram metas e a eliminação de burocracias internas.

O foco na "cultura de performance"

O recado implícito nos relatórios corporativos é o término da era de recompensar desempenhos medianos com promoções, aumentos salariais ou benefícios de bem-estar no escritório, como "kombucha grátis". Segundo o InvestNews, as companhias que perderam participação de mercado ou ficaram atrás de concorrentes em retorno aos acionistas estão focadas em construir uma "cultura de performance", onde funcionários medianos correm risco real de dispensa.

Conforme dados levantados pelas empresas do índice S&P 500, a expressão “cultura de performance” foi utilizada 633 vezes em teleconferências de resultados e documentos oficiais ao longo do último ano, um salto expressivo frente à média de 460 citações registrada nos quatro anos anteriores.

Essa reestruturação cultural tem sido capitaneada principalmente por novos CEOs. Na Unilever, Fernandez redesenhou o modelo de bônus dos executivos, atrelando a remuneração ao desempenho de linhas de negócios específicas e eliminando desculpas baseadas em oscilações cambiais.

No HSBC, o CEO Georges Elhedery destacou que sua experiência de duas décadas no banco foi fundamental para mapear ineficiências: “Fui definitivamente implacável em eliminar complexidades”, afirmou. No banco porto-riquenho Popular, o CEO Javier Ferrer justificou a pressão mesmo diante de balanços positivos: “As pessoas dizem: ‘Estamos indo muito bem, então por que mudar?’. Mas eu prefiro pensar: ‘Estamos indo bem, mas não seria ótimo se pudéssemos fazer ainda melhor?’”.