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Mapa do valor

Marcos Troyjo: Brasil pode liderar nova geografia global da produção

Ex-presidente do Banco do Brics afirma que o país reúne escala, energia limpa e capacidade industrial para ocupar posição estratégica nas cadeias globais de valor, desde que avance em estabilidade regulatória e visão de longo prazo.

14 de maio de 2026 por LIDE

Marcos_TroyjoEx-presidente do Banco do Brics afirma que o país reúne escala, energia limpa e capacidade industrial para ocupar posição estratégica nas cadeias globais de valor. (Foto: Divulgação)

A reorganização das cadeias globais de valor, impulsionada por tensões geopolíticas, disputas tecnológicas e pela busca por maior resiliência, está redefinindo o mapa da produção mundial. O chamado nearshoring, aliado à transição energética e à segurança econômica, abre uma janela de oportunidade para países com escala, recursos naturais e capacidade industrial. Nesse novo cenário, o Brasil surge como um potencial protagonista, mas ainda enfrenta desafios estruturais para converter suas vantagens competitivas em atração consistente de investimentos produtivos.

“O investidor internacional aceita custo, o que ele não aceita é imprevisibilidade.” A frase resume a leitura de Marcos Troyjo sobre o principal desafio brasileiro na nova economia global. Economista, cientista político e diplomata, ele construiu uma trajetória internacional marcada pela atuação em comércio exterior, geopolítica e finanças multilaterais. Foi presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco dos Brics, onde liderou a expansão da instituição e reforçou seu papel no financiamento de infraestrutura sustentável.

Experiência prática

Troyjo também ocupou o cargo de secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais e de vice-ministro da Economia, além de ter sido negociador do Acordo Mercosul-União Europeia. No ambiente acadêmico, é fundador do BRICLab, na Universidade Columbia, e atualmente atua como fellow da Universidade de Oxford, além de integrar o Fórum Econômico Mundial.

Com trânsito entre setor público, iniciativa privada e academia, é hoje co-chairman do LIDE – Grupo de Líderes Empresariais, onde acompanha de perto os movimentos de reconfiguração da economia global e suas implicações para o Brasil. De acordo com ele, o país reúne atributos únicos, escala continental, matriz energética limpa e base produtiva diversificada, mas precisa avançar na construção de um ambiente de maior previsibilidade para se posicionar como um hub estratégico nas cadeias globais de valor. Leia a entrevista completa a seguir.

REVISTA LIDE: A reorganização das cadeias globais de valor abriu espaço para o chamado nearshoring. Como o Brasil pode se posicionar para se tornar um destino preferencial de produção para empresas norte-americanas?

MARCOS TROYJO: O nearshoring é menos sobre geografia e mais sobre geopolítica. As empresas hoje não estão apenas otimizando custos, estão redesenhando suas cadeias à luz de risco, resiliência e previsibilidade. O Brasil tem atributos muito claros para se inserir nesse movimento. É uma economia de escala continental, com base industrial diversificada, matriz energética limpa e uma das plataformas mais competitivas do mundo em alimentos e recursos naturais. Mas há um ponto importante: o Brasil não deve aspirar a ser uma réplica do México. O México é uma extensão natural da manufatura norte-americana. O Brasil pode ser algo diferente, uma plataforma de produção sofisticada, especialmente em setores intensivos em energia limpa, recursos naturais e tecnologia aplicada. Para isso, precisamos reduzir o “custo da incerteza”. O investidor internacional aceita custo, o que ele não aceita é imprevisibilidade.

REVISTA LIDE: Historicamente, a relação econômica entre Brasil e Estados Unidos teve ciclos de aproximação e distanciamento. O atual cenário geopolítico cria condições para um novo eixo estratégico nas Américas?

MARCOS TROYJO: Sem dúvida. O mundo está passando por uma transição que eu costumo chamar de passagem de uma lógica de eficiência para uma lógica de segurança econômica. Nesse contexto, as Américas ganham centralidade. Energia, alimentos, minerais críticos, tudo isso está concentrado no hemisfério. Os Estados Unidos estão redesenhando suas cadeias para reduzir vulnerabilidades, especialmente em relação à Ásia. Isso abre uma janela de oportunidade para países como o Brasil. Mas não se trata de alinhamento automático. Trata-se de uma relação baseada em interesses convergentes. Eu diria que estamos entrando em uma fase de “interdependência seletiva”: cooperamos onde há ganhos mútuos e preservamos autonomia onde necessário.

REVISTA LIDE: Setores como tecnologia verde, agronegócio de precisão e segurança energética aparecem como áreas de convergência entre os dois países. Quais deles têm maior potencial de gerar uma nova fase de industrialização no Brasil?

MARCOS TROYJO: Se tivermos que hierarquizar, eu começaria pela segurança energética. O Brasil tem uma das matrizes mais limpas do mundo e pode se tornar um grande hub de produção de energia descarbonizada, hidrogênio verde, biocombustíveis avançados, eólica, solar.

Isso não é apenas energia, é indústria. Atrai cadeias produtivas inteiras. Em seguida, o agronegócio de precisão. O Brasil já é uma potência agroexportadora, mas o futuro está na integração entre agro, tecnologia e serviços. É aí que se gera valor.

E, por fim, a tecnologia verde como eixo transversal, novos materiais, captura de carbono, economia circular. Esses setores dialogam diretamente com aquilo que eu chamo de ESG 2.0, em que economia, segurança e geopolítica passam a orientar decisões de investimento.

REVISTA LIDE: O Brasil tem vantagens naturais relevantes, energia renovável, base industrial e escala agrícola. O que ainda falta em termos de política industrial e ambiente regulatório para transformar esses ativos em atração de investimentos produtivos?

MARCOS TROYJO: O Brasil não sofre de falta de ativos. Sofre de dificuldade em convertê-los em previsibilidade. O investidor global quer três coisas: clareza regulatória, estabilidade institucional e horizonte de longo prazo. Nós ainda temos um ambiente regulatório fragmentado, mudanças frequentes de regras e uma percepção de volatilidade institucional. Além disso, precisamos repensar a política industrial. O mundo voltou a ter política industrial, mas não nos moldes do passado. Hoje ela é mais estratégica, mais conectada à inserção internacional e menos baseada em proteção. O desafio do Brasil é sair de uma lógica de incentivo disperso para uma lógica de coordenação estratégica.

REVISTA LIDE: A disputa tecnológica entre grandes potências está redesenhando o comércio internacional. Como o Brasil pode equilibrar suas relações com diferentes blocos econômicos sem perder oportunidades estratégicas com os Estados Unidos?

MARCOS TROYJO: O Brasil precisa operar com pragmatismo. Não estamos em uma Guerra Fria clássica, mas em um ambiente de competição sistêmica. Isso exige habilidade diplomática e clareza de interesses. O caminho é a diversificação. O Brasil deve manter relações econômicas robustas com diferentes polos, Estados Unidos, Europa, Ásia, sem se tornar excessivamente dependente de nenhum deles. Ao mesmo tempo, há áreas em que a aproximação com os Estados Unidos é natural, especialmente em setores estratégicos como energia, tecnologia aplicada e cadeias críticas. O maior risco não é escolher um lado. O maior risco é ficar à margem das cadeias mais dinâmicas da economia global.

REVISTA LIDE: Se o Brasil quiser se consolidar como o principal hub logístico e industrial das Américas, quais seriam as três decisões econômicas ou institucionais mais urgentes que o país deveria tomar na próxima década?

MARCOS TROYJO: Eu destacaria três decisões fundamentais. Primeiro, investir de forma consistente em infraestrutura logística. O Brasil ainda opera com custos de transporte elevados e baixa integração territorial. Isso compromete competitividade. Segundo, definir uma estratégia clara de inserção nas cadeias globais de valor. Não basta querer participar, é preciso escolher onde competir.

Terceiro, garantir estabilidade regulatória e institucional. O capital internacional valoriza previsibilidade acima de tudo. Se o Brasil conseguir avançar nesses três pontos, ele tem todas as condições de se tornar um dos principais hubs produtivos e logísticos do mundo. O mundo está sendo reconfigurado. A Globalização não está desaparecendo, está sendo reescrita. E, nesse novo capítulo, países que combinarem escala, recursos, estabilidade e visão estratégica terão vantagem. O Brasil reúne os três primeiros. Falta, agora, consolidar o quarto.