Cuidados com a saúde bucal podem ser desafio em crianças com TEA
Escovação difícil, seletividade alimentar, dor silenciosa e acesso limitado a especialistas tornam essencial a atuação integrada entre profissionais e famílias.
Escovação difícil, seletividade alimentar, dor silenciosa e acesso limitado a especialistas tornam essencial a atuação integrada entre profissionais e famílias. (Foto: Magnific)
Cuidar da saúde bucal de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) é, para muitas famílias, um exercício diário de paciência, adaptação e persistência. A escovação dos dentes, um hábito aparentemente simples, pode se transformar em um momento de tensão, muitas vezes marcado por resistência e choro. Embora dificuldades na higiene oral também possam ocorrer em crianças neurotípicas, no caso do autismo elas tendem a ser potencializadas por fatores sensoriais e comportamentais.
Entre os obstáculos mais frequentes estão a hipersensibilidade ao toque, ao sabor e à textura, além de dificuldades de comunicação e compreensão da rotina. “Muitas crianças não toleram a escova na boca ou não entendem a necessidade da higiene, o que torna o processo estressante para toda a família”, relata a cirurgiã-dentista Danielle Lima Correa de Carvalho, professora da graduação em Odontologia do Einstein Hospital Israelita. Isso pode levar ao desgaste emocional dos cuidadores e, em alguns casos, à negligência da escovação.
As disfunções sensoriais estão no centro desse desafio. Para algumas crianças, o simples contato das cerdas da escova ou com a espuma do creme dental pode ser percebido como invasivo e até doloroso. “Esses estímulos funcionam como gatilhos para crises e comportamentos de esquiva”, explica o cirurgião-dentista Márcio Ajudarte Lopes, professor titular de estomatologia da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo.
Por isso, a higiene bucal costuma exigir abordagens individualizadas e, muitas vezes, um processo de dessensibilização gradual. Na prática, significa introduzir o contato progressivamente, em etapas pequenas, previsíveis e repetidas, respeitando o tempo da criança em vez de impor a escovação completa de uma só vez. O objetivo é reduzir, gradualmente, a sensibilidade e a resistência, até que o cuidado com a boca se torne mais tolerável e, idealmente, parte da rotina.
Esse processo vai além da saúde oral e pode impactar diretamente o desenvolvimento infantil. “A saúde bucal influencia a nutrição, o sono, a comunicação e o bem-estar emocional. Dor ou desconforto não tratados podem agravar a irritabilidade, prejudicar a alimentação e comprometer habilidades de fala e linguagem”, afirma o neurologista infantil Paulo Emidio Lobão Cunha, membro do departamento científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Segundo ele, tratar problemas bucais nessa população também está associado a redução de comportamentos disruptivos e melhora da qualidade de vida.
Nesse contexto, insistir num atendimento odontológico abruptamente pode ter efeito contrário. O ideal é começar lentamente, sempre respeitando os limites da criança. “O atendimento deve priorizar a ambientação e a dessensibilização do paciente, em um ambiente com estímulos sensoriais controlados e apoio de recursos visuais que antecipem o que será feito. O acolhimento da família e a construção de uma rotina preventiva são fundamentais antes de qualquer intervenção clínica invasiva”, orienta a cirurgiã-dentista Tamiris Christensen Bueno, doutora em estomatopatologia e pesquisadora na Unicamp.
Isso ajuda a criar previsibilidade, algo especialmente importante para pessoas com TEA. “Eles gostam de rotina e de saber exatamente o que vai acontecer”, avisa a cirurgiã-dentista Marina Gallottini, professora titular da disciplina de estomatologia e coordenadora do Centro de Atendimento a Pacientes Especiais (CAPE) da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP). A introdução do creme dental, por exemplo, pode ser feita de maneira progressiva ou até mesmo adiada, dependendo do perfil da criança. “Se houver recusa, o mais importante é manter a escovação mecânica, mesmo sem pasta, para remover o biofilme. A ideia é priorizar o hábito e reduzir o estresse, incorporando novos elementos aos poucos”, diz Gallottini.
Seletividade alimentar
Outro fator que contribui para o risco aumentado de problemas bucais é a seletividade alimentar, bastante comum em crianças autistas. Dietas restritas, frequentemente ricas em preparações pastosas e açucaradas, que aderem mais facilmente aos dentes, favorecem o desenvolvimento de cáries.
“A maior ocorrência de cáries e doenças gengivais nesse público está ligada a um conjunto de fatores: a dieta seletiva, a dificuldade na higiene bucal por conta da resistência sensorial e, ainda, o uso de medicamentos que reduzem a salivação. Soma-se a isso o acesso mais limitado a consultas preventivas, favorecendo a progressão mais rápida desses problemas”, reforça Márcio Lopes, da Unicamp.
A identificação precoce de problemas bucais também pode ser desafiadora, já que muitas dessas crianças têm limitações na comunicação verbal. Por isso, os sinais costumam ser indiretos: irritabilidade, recusa alimentar, alterações no sono ou o hábito de levar a mão à boca. “Os pais também devem observar manchas nos dentes, sangramento gengival e mau hálito persistente”, orienta Danielle Correa, do Einstein.
O elo entre dor e comportamento, aliás, costuma passar despercebido. “Crianças com TEA muitas vezes não conseguem expressar a dor de forma convencional, e o desconforto pode se manifestar como agitação, autoagressão, recusa alimentar ou piora súbita do comportamento”, explica a neurologista infantil Ana Carolina Coan, vice-coordenadora do departamento de neurologia infantil da Academia Brasileira de Neurologia. Segundo ela, diante de mudanças comportamentais sem causa aparente, a dor de origem bucal deve sempre ser considerada.
Apesar das dificuldades, um ponto é consenso entre os especialistas: quanto mais cedo começar o acompanhamento odontológico, melhor. O ideal é que a primeira consulta ocorra ainda no primeiro ano de vida, com foco na adaptação ao ambiente e na criação de vínculo, sem necessariamente existir um problema. Conhecido como condicionamento, esse processo permite que a criança se familiarize gradualmente com o consultório, os instrumentos e os profissionais. “O encaminhamento ao odontopediatra deve ser precoce, de preferência logo após o diagnóstico, para atuar preventivamente e evitar procedimentos mais complexos no futuro”, orienta Paulo Cunha, da SBP.
Nos casos em que o manejo comportamental não é suficiente, pode ser necessário recorrer à sedação, especialmente para procedimentos mais complexos como extração dentária ou restaurações. “Em situações de grande resistência, a anestesia geral em ambiente hospitalar garante mais segurança e permite realizar todos os tratamentos de uma vez”, explica a cirurgiã-dentista Letícia Bezinelli, coordenadora do Serviço de Odontologia Hospitalar do Einstein e da graduação de Odontologia. A decisão, no entanto, deve ser sempre individualizada.
Abordagem multidisciplinar
A boa notícia é que iniciativas voltadas ao atendimento especializado vêm ampliando o acesso e melhorando a experiência não apenas de crianças com TEA, mas com qualquer neurodivergência. Um exemplo é o programa desenvolvido no Hospital Infantil Darcy Vargas, unidade pública estadual em São Paulo gerida pelo Einstein, que aposta em uma abordagem multidisciplinar e humanizada.
O atendimento especializado inclui desde o acompanhamento ambulatorial até procedimentos em centro cirúrgico, sempre com planejamento individualizado e foco no cuidado integral. Segundo Bezinelli, o diferencial está na integração entre áreas da saúde, no ambiente adaptado e no preparo das equipes para lidar com pacientes com necessidades especiais.
Embora o acesso a serviços como esse ainda seja desigual no país, pouco a pouco, a medicina e a ciência avançam na compreensão de como assegurar mais saúde e qualidade de vida a crianças e pessoas de todas as idades e condições.
Fonte: Agência Einstein