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Li Dongsheng

Como empresas multinacionais podem preencher as lacunas em uma economia global fragmentada

O mundo atravessa um período de profunda transição econômica. Nos últimos anos, mudanças geopolíticas e econômicas colocaram à prova cadeias de suprimentos que, até pouco tempo atrás, pareciam consolidadas.

15 de julho de 2026 - Atualizado há 5 horas Por Li Dongsheng, fundador e presidente da TCL

Em um mundo cada vez mais fragmentado, as empresas multinacionais podem atuar como uma força econômica estabilizadora entre diferentes mercados.

Ao expandirem sua presença global, as multinacionais podem compartilhar inovações tecnológicas e desenvolver capacidade industrial local, integrando mercados emergentes à economia global.

Escalar ideias promissoras para gerar impacto em toda a economia global é um dos principais focos da Reunião Anual dos Novos Campeões do Fórum Econômico Mundial, também conhecida como "Davos de Verão", realizada na China entre 23 e 25 de junho de 2026.

O mundo atravessa um período de profunda transição econômica. Nos últimos anos, mudanças geopolíticas e econômicas colocaram à prova cadeias de suprimentos que, até pouco tempo atrás, pareciam consolidadas.

Para as empresas que atuam em diversos mercados, isso significa operar em um ambiente muito mais complexo e imprevisível. Também contribuiu para que o Fundo Monetário Internacional projetasse um crescimento econômico global de apenas 3,1% em 2026, abaixo da média histórica de 3,7%. A Organização Mundial do Comércio projeta que o crescimento do comércio de bens cairá para 1,9% em 2026, o menor nível em uma década.

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Li Dongsheng, fundador e presidente da TCL. (Foto: Divulgação)

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial (IA) está remodelando os mercados de trabalho e criando novos desafios relacionados à distribuição das capacidades tecnológicas e das oportunidades econômicas. Paralelamente, a crise climática intensifica as pressões sobre a economia.

Quando o jornalista Thomas Friedman publicou O Mundo é Plano em 2005, o título capturava o impulso da globalização naquele momento. Vinte anos depois, esse cenário mudou profundamente. Tensões geopolíticas, mudanças tecnológicas e novas prioridades econômicas tornaram o ambiente global muito mais fragmentado, no qual empresas multinacionais desempenham uma função crucial ao manter a colaboração econômica entre fronteiras.

O papel das multinacionais no crescimento econômico

Em uma economia global fragmentada, as empresas multinacionais ajudam a superar barreiras operacionais para manter a conectividade internacional. Empresas inovam continuamente para utilizar melhor seus recursos, enquanto direcionam capital, tecnologia e talentos para mercados capazes de acelerar esse desenvolvimento.

Esse investimento transfronteiriço financia diretamente o crescimento, proporcionando capital, empregos e arrecadação tributária aos países anfitriões. Mais do que investir, empresas multinacionais ajudam a levar inovação para novos mercados, garantindo que o progresso tecnológico beneficie uma parcela mais ampla da população.

Em última análise, operações transnacionais estabelecem relações comerciais estáveis e pragmáticas, capazes de resistir a períodos de instabilidade política.

Da exportação à construção de polos regionais

Para se adaptar a essa nova era de fragmentação global, as corporações multinacionais estão deixando de apenas exportar produtos acabados para desenvolver capacidade industrial local.

Hoje, cerca de dois terços da receita da TCL vêm de mercados internacionais. Começamos a construir essa presença global em 1999, ao adquirir uma fábrica no Vietnã para estabelecer produção local. Nossa estratégia "Globalização 3.0" parte justamente desse princípio: fortalecer operações regionais independentes nos cinco continentes. Em parceria com stakeholders locais e governos, cada polo integra cadeias de suprimentos locais, marketing de marca, operações de varejo, atendimento ao cliente e desenvolvimento de produtos.

Na América do Norte, por exemplo, a TCL opera um centro de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) no Vale do Silício, na Califórnia, para alinhar o desenvolvimento de produtos às necessidades técnicas da região. As unidades fabris de Tijuana e Juárez, no México, geram 3.400 empregos locais. Por meio da combinação entre P&D regional, produção e marketing, a TCL mantém participação entre as três maiores marcas em volume de remessas de televisores na América do Norte.

Esse movimento não acontece apenas na indústria de eletrônicos. O Grupo Volkswagen, por exemplo, criou a PowerCo para construir gigafábricas de baterias para veículos elétricos na Europa e na América do Norte. Ao regionalizar a produção, a Volkswagen fortalece suas cadeias de suprimentos e transfere competências técnicas para os mercados locais, em vez de depender de um único polo global de exportação.

Na TCL, nossa trajetória internacional esteve longe de ser simples. Em nossos primeiros esforços, nossa estratégia de globalização nos levou à beira do colapso. Essas experiências nos ensinaram uma lição importante: globalização e localização são estruturalmente interdependentes. Alcançar verdadeira escala global exige profunda integração local.

Como as multinacionais podem ampliar a inovação

Hoje, criar uma nova tecnologia já não é suficiente. O verdadeiro desafio está em torná-la acessível e relevante para milhões de pessoas. É isso que transforma inovação em crescimento.

No entanto, os rápidos avanços em inteligência artificial, novas fontes de energia, biotecnologia e computação quântica exigem ampla implementação para gerar valor. Para que isso aconteça, quatro capacidades fazem toda a diferença:

  • A Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) sistemática deve produzir continuamente avanços tecnológicos funcionais;
  • A capacidade de transformar uma boa ideia em um produto escalável, ou seja, os sistemas e ferramentas que convertem uma ideia em um produto escalável, devem transformar tecnologias de laboratório em produtos prontos para o mercado;
  • A produção em larga escala precisa garantir eficiência e qualidade;
  • Redes globais de distribuição devem levar esses produtos aos mercados internacionais com preços acessíveis.

Na América Latina, vemos esse movimento com clareza. Empresas como a Nestlé já localizaram parte importante de suas operações produtivas. Ao construir cadeias de suprimentos regionais paralelas, conseguem ampliar inovações operacionais para superar limitações de infraestrutura e entregar produtos de forma mais eficiente.

Como as multinacionais podem impulsionar um crescimento mais equitativo

Quando as cadeias globais de suprimentos se fragmentam, os custos operacionais inevitavelmente aumentam. Isso pode alimentar a inflação, elevando o custo de bens de consumo cotidianos, consequências que recaem de forma desproporcional sobre as populações de menor renda e ampliam o risco de aumento da desigualdade global.

Enfrentar essas pressões exige uma arquitetura econômica que equilibre eficiência e equidade. Ao mesmo tempo, vale lembrar que boa parte do potencial de crescimento global continua concentrada em mercados onde a demanda existe, mas ainda enfrenta limitações para se desenvolver.

Os países em desenvolvimento frequentemente possuem enorme demanda potencial, mas deficiências em infraestrutura física, base industrial e capacidade técnica impedem que esse potencial se converta em atividade econômica. O investimento de capital das multinacionais ajuda a reduzir essa lacuna.

Quando esse investimento chega, ele ajuda a criar as condições para que economias locais cresçam de forma sustentável.

No Egito, por exemplo, investidores multinacionais, com apoio de garantias do Grupo Banco Mundial, estão financiando infraestrutura de energia solar. Esse capital transfronteiriço converte diretamente a demanda potencial por energia em eletricidade local mais barata, fornecendo a infraestrutura básica necessária para impulsionar um novo ciclo de crescimento industrial.

Para viabilizar esse tipo de investimento, é necessária estabilidade regulatória. Quando as políticas públicas contribuem para simplificar as regras do comércio e estabelecer ambientes de negócios previsíveis, as empresas multinacionais ganham condições para investir capital de longo prazo, desenvolver capacidade industrial regional e capacitar a força de trabalho local.

Em uma economia global fragmentada, o investimento comercial transfronteiriço continua sendo um dos mecanismos mais eficazes para promover um crescimento mais equitativo e ampliar as ideias inovadoras de que o mundo mais precisa.

*Li Dongsheng é fundador e presidente da TCL