Primeiro navio abastecido com etanol brasileiro abre mercado para biocombustíveis no transporte marítimo
Embarcação da CMA CGM parte de Santos em teste que pode impulsionar a demanda por etanol na descarbonização da navegação global.

A embarcação CMA CGM Iron, operada com metanol, etanol e combustível fóssil convencional, seguirá rumo à Ásia. (Foto: Divulgação)
O primeiro navio porta-contêineres abastecido com etanol produzido no Brasil partiu do Porto de Santos em um teste que pode marcar um novo capítulo para a indústria nacional de biocombustíveis. Segundo a Bloomberg, a embarcação CMA CGM Iron, adaptada para operar com metanol, etanol e combustível fóssil convencional, seguirá rumo à Ásia em uma iniciativa que busca acelerar a descarbonização do transporte marítimo.
"O Brasil é estratégico para nós e para o restante do mundo", afirmou Neusa Marcelino, CEO da CMA CGM no Brasil. Segundo a executiva, o abastecimento com etanol representa um passo importante nos esforços da companhia para reduzir as emissões de carbono da navegação.
A operação abre uma oportunidade para o setor sucroenergético brasileiro. O uso do etanol como combustível marítimo cria um mercado potencial para um segmento que hoje consome cerca de 250 milhões de toneladas de combustível por ano. O Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol, atrás apenas dos Estados Unidos.
A iniciativa ocorre enquanto a Organização Marítima Internacional (IMO) avança na regulamentação para reduzir as emissões do setor. A expectativa é que as novas regras ampliem o uso de combustíveis renováveis na navegação, favorecendo alternativas como o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar e do milho.
Para Narciso Bertholdi, integrante dos conselhos de administração da CerradinhoBio e da Alcoeste, o potencial de crescimento é significativo. "Considere que a indústria marítima consome aproximadamente 250 milhões de toneladas de combustível por ano. Se apenas 10% desse volume fosse substituído por etanol, a demanda chegaria a 32 bilhões de litros — praticamente o equivalente a todo o mercado brasileiro de etanol", afirmou.
O movimento acompanha a expansão da frota global preparada para operar com combustíveis renováveis. A CMA CGM pretende contar com cerca de 200 embarcações adaptadas até 2031. Segundo o World Shipping Council, atualmente existem cerca de 440 navios porta-contêineres e transportadores de veículos equipados com motores bicombustíveis em operação no mundo, enquanto mais de 1.200 embarcações desse tipo já foram encomendadas ou entregues.
Apesar das perspectivas positivas, especialistas avaliam que o avanço do etanol na navegação dependerá da evolução das regras internacionais. "Testar um combustível é uma coisa. Construir um mercado em torno dele é outra", afirmou Filippe Fernandez, diretor comercial para a América Latina da Bunker One.