Por que o dinheiro não é mais o maior problema da infraestrutura urbana
Novo plano estratégico propõe o abandono de investimentos fragmentados em favor de ciclos de longo prazo para suportar o crescimento populacional e desastres naturais.
O crescimento populacional acelerado e a frequência de desastres climáticos colocaram as cidades globais em um ponto de inflexão. No entanto, ao contrário do que o senso comum sugere, o maior obstáculo para a modernização das metrópoles não é a escassez de recursos ou de ambição. O gargalo real reside na forma como as decisões são tomadas e os investimentos são estruturados.
Um novo estudo estratégico da KPMG, intitulado "Blueprint for Livable Economies", revela que a falta de infraestrutura e a baixa capacidade de governança são reflexos de um modelo de gestão fragmentado que já não responde aos desafios do século XXI.
"O desafio não é a falta de financiamento, mas sim como os investimentos são estruturados e a entrega é governada e coordenada," explica Tatiana Gruenbaum, sócia-diretora líder de Infraestrutura da KPMG no Brasil.
Tatiana Gruenbaum, sócia-diretora líder de Infraestrutura da KPMG no Brasil. (Foto: Divulgação)
A Ruptura com o Modelo Tradicional
Para transformar centros urbanos em economias habitáveis e resilientes, o relatório aponta quatro mudanças de paradigma que devem nortear a agenda de CEOs e gestores públicos:
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Visão Sistêmica sobre Ativos Isolados: É preciso parar de avaliar obras de forma desconectada. O foco deve migrar para resultados integrados, onde cada investimento em transporte ou saneamento gere benefícios cumulativos para toda a malha urbana.
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Ecossistemas Colaborativos: A entrega fragmentada de serviços deve ser substituída por modelos que unam agências públicas, parceiros privados e comunidades em torno de objetivos comuns, eliminando silos operacionais.
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Investimento de Longo Prazo: O capital precisa abandonar os ciclos políticos e adotar programas plurianuais. A estratégia é antecipar transições demográficas, tecnológicas e climáticas antes que elas se tornem crises financeiras.
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Governança Blindada: A adoção de modelos de gestão independentes de mandatos eleitorais é crucial. O uso de painéis de desempenho (dashboards) com métricas claras garante a transparência e a continuidade dos projetos.
O Valor Econômico da Habitabilidade
Mudar a forma de gerir as cidades não é apenas uma questão social, mas de viabilidade econômica. O plano da KPMG detalha que uma governança centrada em valor permite expandir a captura de valor da terra e apoiar o crescimento de pequenas e médias empresas através de sistemas circulares e soluções baseadas na natureza.
No pilar da infraestrutura, o foco deixa de ser apenas "construir o novo" para focar na atualização de redes antigas e na expansão da infraestrutura pública digital. O resultado é uma conectividade de maior qualidade que atrai talentos e retém investimentos.