Brazil Iron investe US$ 5,7 bilhões na Bahia para liderar a corrida global do ferro verde
Com projeto integrado de mineração e siderurgia de baixo carbono no interior baiano, multinacional britânica avança no licenciamento ambiental e já garante US$ 30 bilhões em vendas antecipadas para mercados da Europa e da Ásia.
A britânica Brazil Iron está acelerando os passos para posicionar o Brasil na vanguarda da transição energética industrial. Com um investimento projetado de US$ 5,7 bilhões até 2030, a companhia desenvolve o Projeto Ferro Verde nos municípios de Piatã, Abaíra e Jussiape, na Chapada Diamantina (BA). O empreendimento integra a extração de minério de ferro de alta pureza com três etapas industriais de beneficiamento para a produção de Hot Briquetted Iron (HBI, ou Ferro Verde), insumo crucial para viabilizar a fabricação de aço com emissão quase zero de carbono.
O movimento da mineradora insere-se em um ciclo histórico do setor no país. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), a mineração brasileira deve receber US$ 76,9 bilhões em aportes até 2030 — volume 4,3 vezes superior ao ciclo registrado entre 2017 e 2021. O minério de ferro desponta como o principal destino individual desses recursos, absorvendo US$ 19,8 bilhões.
O diferencial baiano e a garantia de US$ 30 bilhões em receita
A escolha do interior da Bahia não é casual. O estado abriga uma das reservas mais raras do planeta: o Itabirito Soft, um tipo de minério com altíssimo grau de pureza e baixa dureza que representa apenas 3% das reservas mundiais. Essa característica mineralógica, aliada à abundância de matriz energética 100% renovável (eólica e solar) no estado, cria as condições ideais para a produção de HBI com 93% de concentração de ferro.
Emerson Souza, vice-presidente de Relações Institucionais da Brazil Iron. (Foto: Reinaldo Canato/Divulgação)
Mesmo antes do início da fase de implementação — prevista para o fim de 2026 ou início de 2027 —, a empresa já possui a totalidade dos seus primeiros dez anos de produção comercializada por meio de dois contratos de offtake. A demanda antecipada assegura uma receita futura estimada em US$ 30 bilhões.
"Se nós pensarmos que ainda nem iniciamos a implementação do projeto e já houve um apetite de compra de 10 anos de produção por dois mercados distintos, isso já nos dá um sinal claro de que existe um olhar muito forte do mercado global para esse tipo de produto", destaca Emerson Souza, vice-presidente de Relações Institucionais da Brazil Iron.
A urgência do mercado internacional é impulsionada por exigências regulatórias rigorosas, como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) da União Europeia, que passa a tarifar o aço intensivo em carbono, e por subsídios governamentais no Japão para a descarbonização da indústria.
Mineração de última geração: zero barragens e mina sem caminhões
Diferente de operações legadas, o Projeto Ferro Verde nasce da estaca zero (Greenfield) incorporando os padrões ambientais mais avançados da indústria mundial. A operação foi projetada 100% sem barragens de rejeitos, adotando o empilhamento a seco (dry stacking).
Para minimizar a pegada de carbono e o impacto operacional na mina, o transporte interno de material não utilizará caminhões. O deslocamento será realizado por mais de 16 quilômetros de esteiras rolantes de longa distância movidas a energia limpa.
A empresa também firmou parceria com a alemã RWE para empregar uma solução de recuperação ambiental simultânea. Uma máquina de 220 metros de comprimento realizará a recomposição da área minerada de forma concorrente à lavra, permitindo que o solo seja totalmente reabilitado e agricultável em até sete anos. Os estudos de impacto ambiental (EIA/RIMA) foram conduzidos pelo SENAI Cimatec, visando assegurar rigor técnico no processo de licenciamento.
Projeto Ferro Verde nasce da estaca zero (Greenfield) incorporando os padrões ambientais mais avançados da indústria. (Arte: Reprodução)
Aço verde e o novo paradigma da indústria automotiva
A substituição dos altos-fornos tradicionais a carvão por Fornos Elétricos a Arco (FEAs) alimentados por Ferro Verde permite cortar em até 95% as emissões de CO2 no processo siderúrgico. Ao longo de sua vida útil, o projeto da Brazil Iron evitará a emissão de aproximadamente 473 milhões de toneladas de gases de efeito estufa.
Esse avanço atende de forma direta à cadeia automotiva, onde o aço representa cerca de 65% do peso total de um veículo.
"De nada adianta termos carros elétricos se a produção desses veículos continuar sendo feita com um aço que na sua geração elimina uma grande quantidade de gases de efeito estufa. A indústria automotiva é uma das primeiras a buscar esse produto para poder construir um carro verde legítimo, que seja elétrico na condução e neutro em carbono na sua fabricação", pondera Emerson Souza.
Impacto socioeconômico e agregação de valor
Em vez de limitar-se à exportação de minério bruto como commodity de baixo valor, a Brazil Iron verticalizará a produção em solo nacional. As três etapas de beneficiamento (concentrado, pelota e HBI) retêm a inteligência industrial e os ganhos econômicos no Brasil.
| Indicador Estratégico | Projeção do Projeto Ferro Verde |
| Investimento Total |
US$ 5,7 bilhões (R$ 1,7 bi já aplicados em pesquisa) |
| Geração de Empregos |
55.000 vagas diretas e indiretas no pico da obra |
| Arrecadação de Impostos |
R$ 50 bilhões (mínimo estimado) |
| Capacidade de Produção (Fase 1) |
5 milhões de toneladas/ano de HBI |
| Previsão de Operação |
2030 |
No quesito logístico, a empresa considera a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e o Porto Sul como rota principal (Plano A). Contudo, possui planejamento para conectar o ramal ferroviário próprio à malha da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) como alternativa estratégica de escoamento.
Com a realização da audiência pública como próximo marco do licenciamento prévio, a Brazil Iron consolida um modelo que une atração de capital estrangeiro, inovação tecnológica e descarbonização para colocar a Bahia no centro do mapa global da nova mineração.