Decisões de trabalho estão entre as mais estressantes, aponta estudo
Pesquisa com mais de 4 mil pessoas na Suíça mapeou as escolhas que mais geram estresse; entenda o que acontece no cérebro e como não entrar em colapso.
Pesquisa mapeou que as decisões mais estressantes envolvem o trabalho. (Foto: Freepik)
Aceitar um novo emprego ou pedir demissão sem ter outro na manga. Investir dinheiro, comprar uma casa, fazer uma cirurgia, mudar de país. Se essas decisões fazem você sentir angústia, saiba que não está sozinho. Um estudo da Universidade de Zurique, na Suíça, publicado na revista Psychological Science, mapeou as escolhas consideradas mais arriscadas e estressantes da vida moderna.
Foram analisadas cinco amostras, somando mais de 4 mil participantes suíços entre 15 e 79 anos, antes e durante a pandemia de Covid-19, iniciada em 2020. O resultado: quase um terço (32%) das decisões estressantes envolvem o trabalho. Aceitar um novo emprego lidera o ranking, seguida por pedir demissão, saber como investir o próprio dinheiro, dirigir, tornar-se autônomo e comprar uma casa. Completam o top 10: fazer uma cirurgia, casar-se, tomar vacina e mudar-se para outro país.
O padrão se manteve ao longo dos anos de pesquisa e entre faixas etárias, mas houve nuances. Com o avanço da idade, aceitar um novo emprego se tornou mais arriscado, enquanto pedir demissão sem garantia de recolocação apareceu com menos frequência. Já no quesito gênero, entre mulheres, decisões ligadas a formação e casamento aparecem mais; entre homens, cirurgia, viagem e aceitar novas tecnologias ganharam destaque — esse último entre aqueles com mais de 60 anos.
Embora sejam decisões universais, os próprios autores ponderam: como a amostra foi toda de pessoas da Suíça, país de alta estabilidade social e nível de segurança, os resultados não devem ser generalizados para outras culturas. No entanto, os dados trazem um norte para o comportamento contemporâneo.
Por que o trabalho pesa tanto?
No Brasil, 60% dos trabalhadores pensam em pedir demissão com alguma frequência, de acordo com a 3ª edição da pesquisa Engaja S/A, levantamento nacional de engajamento realizado com mais de 5 mil pessoas. Ao longo de 2025, 64% dos entrevistados se candidataram a novas vagas. Um dos motivos é o baixo engajamento dos trabalhadores, motivado por cansaço, desconfiança e sensação de estagnação.
Para o psicólogo Paulo Cesar Porto Martins, doutor em psicologia clínica e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), faz sentido que a carreira seja foco de tanto estresse. “O trabalho concentra múltiplas fontes de vulnerabilidade ao mesmo tempo: renda, identidade, pertencimento social, rotina diária e sensação de utilidade.” Mudar de emprego vira, portanto, um “risco sistêmico”: pode abalar várias áreas da vida de uma só vez.
Aceitar uma nova vaga mistura três ingredientes “explosivos”: incerteza elevada (não se conhece a cultura da nova organização, as relações com colegas ou a carga de trabalho), possibilidade concreta de perda (renunciar a uma situação de segurança conhecida) e impacto na identidade (“quem serei nesse novo papel?”). “Grandes decisões identitárias sob incerteza costumam ser vividas como pontos de não retorno, o que aumenta a ativação fisiológica do estresse e favorece pensamentos catastróficos do tipo ‘e se eu estragar minha vida profissional para sempre?’”, explica Martins.
Já as diferenças entre homens e mulheres quanto ao tipo de decisão percebida como mais arriscada refletem papéis sociais e expectativas culturais que ainda distribuem de forma desigual quem “carrega” certos riscos. “Em termos clínicos, é comum observar que mulheres trazem mais para a terapia dilemas que envolvem vínculos, cuidado e autodesenvolvimento, enquanto homens falam mais de riscos ligados a desempenho, aventura ou proteção material, não porque o cérebro seja diferente, mas porque nossa sociedade ainda reforça papéis estereotipados, fazendo com que as pessoas aprendam, desde cedo, o que deveriam temer”, analisa o psicólogo.
O que acontece no cérebro
Diante de importantes decisões como as citadas no estudo, o cérebro ativa um modo de sobrevivência. “Quando se está sob pressão, é ligado no cérebro o chamado modo de resposta rápida ao risco. Nesse estado, áreas mais reflexivas perdem espaço para respostas rápidas e intuitivas”, detalha o psiquiatra Daniel Oliva, do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.
Na prática, entra em cena o sistema de luta ou fuga. O neurotransmissor noradrenalina e o cortisol, o hormônio do estresse, disparam. Com isso, o coração acelera, a respiração encurta, o sangue é redirecionado para músculos e cérebro. “Ele vai pressionar por uma decisão, o que pode diminuir a racionalidade e maturidade das medidas tomadas”, adverte Oliva.
No entanto, nem todo mundo reage igual diante de uma decisão arriscada. No lugar de uma reação impulsiva, algumas pessoas travam. “Como não enxergam desfechos bons por falta de clareza sobre as decisões que estão tomando, paralisam diante da situação”, ressalta o psiquiatra.
Mas adiar indefinidamente uma posição também cobra seu preço. À primeira vista, costuma parecer um alívio, mas, no médio prazo, torna-se uma forma de exposição crônica ao estresse. “A mente entra num ciclo de ruminação”, explica Paulo Martins. A pessoa pensa o dia todo, mas não decide. O cérebro mantém o alerta ligado, mas sem resolução. Resultado: ansiedade, fadiga e insônia podem dar as caras.
Áreas como o córtex pré-frontal, responsáveis por planejamento, controle inibitório e avaliação de consequências, acabam não funcionando bem. Se a pessoa permanece em estado de hipervigilância, com sono prejudicado e prejuízo na rotina, é hora de procurar ajuda de um profissional de saúde mental para verificar se o estresse já não se tornou patológico. “O termômetro é o quanto isso afeta o dia a dia e a qualidade de vida”, orienta Daniel Oliva.
Como tornar decisões grandes mais leves
Os especialistas consultados sugerem estratégias práticas:
● Decida descansado: após boas noites de sono, o cérebro delibera melhor.
● Reduza estimulantes: álcool, excesso de cafeína e outras substâncias aumentam a impulsividade.
● Divida-se em microdecisões: antes de “mudar de país”, pesquise custo de vida, simule orçamento, converse com quem já foi.
● Escreva cenários realistas: pior caso, melhor caso e o provável. Avalie o que seria tolerável.
● Questione pensamentos catastróficos: “Minha vida acabou” raramente é um diagnóstico preciso. Substitua-os por formulações mais realistas, além de práticas de tolerância à incerteza (exposição gradual a pequenas decisões sem checar tudo mil vezes).
● Converse com alguém de confiança: não para decidir por você, mas para ampliar perspectivas.
● Evite ruminação infinita: estabeleça um prazo para decidir com as informações disponíveis.
● Cuide do corpo: atividade física, sono regular e pausas de relaxamento ajudam o organismo a sair do modo de alerta e tornar os pensamentos mais ponderados.
Fonte: Agência Einstein