Lino Villaventura mergulha na geometria do caos em desfile em São Paulo
Entre nervuras escultóricas, brilhos metálicos e silhuetas que pareciam criaturas de um universo paralelo, o estilista apresentou sua coleção Outono/Inverno 2027 como uma experiência sensorial de rara intensidade.

Batizada de Fractal — Gênese Infinita, a coleção partiu da teoria dos fractais, estruturas geométricas que se repetem infinitamente na natureza.
Há estilistas que desenham roupas. E há aqueles que constroem universos. Lino Villaventura pertence, há décadas, à segunda categoria. Em seu desfile de Outono/Inverno 2027, apresentado em São Paulo na segunda-feira 18, o criador transformou a passarela em um ambiente quase onírico, onde moda, arte e matemática se encontraram em perfeita tensão estética.
Batizada de Fractal — Gênese Infinita, a coleção partiu da teoria dos fractais — estruturas geométricas que se repetem infinitamente na natureza — para criar peças que pareciam vivas, em permanente mutação. Mas, no vocabulário de Lino, a matemática perde qualquer rigidez acadêmica e ganha dramaticidade barroca, sensualidade e mistério.

Vestidos de volumes esculturais surgiam como organismos em expansão. Nervuras manuais percorriam os tecidos como raízes, cristais ou mapas orgânicos, enquanto plissados elaborados ampliavam a sensação de movimento contínuo. Em muitos looks, a construção têxtil lembrava armaduras futuristas ou casulos em transformação.
O estilista reinterpretou algumas de suas técnicas mais emblemáticas sob uma ótica ainda mais experimental. As tradicionais nervuras, assinatura recorrente de sua obra, apareceram multiplicadas em diferentes escalas, reforçando a ideia de autossimilaridade presente nos fractais. Já os patchworks tridimensionais — elaborados a partir de jacquards, sedas metálicas e tecidos sobrepostos — criavam superfícies complexas e quase arquitetônicas.

A cartela de cores intensificava a atmosfera dramática da apresentação. Pretos profundos, grafites e tons de cobre dominavam a passarela, interrompidos por lampejos de vermelho, prata, ouro e nuances ácidas que pareciam emergir da escuridão como matéria em combustão.
O desfile assumiu contornos de performance surrealista. As modelos caminhavam como personagens de uma mitologia futurista, envoltas em texturas táteis e formas que oscilavam entre o artesanal e o extraterrestre. Não havia ali preocupação com tendências instantâneas ou com a estética silenciosa que domina parte da moda contemporânea. O que se viu foi exuberância emocional, excesso calculado e imaginação em estado bruto.
Em uma indústria cada vez mais acelerada e homogênea, Lino Villaventura continua ocupando um território raro: o da criação autoral absoluta. Sua moda não pede aprovação imediata. Pede contemplação. E talvez seja exatamente por isso que continue tão fascinante.


