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Tendência

Como as mulheres ricas estão impulsionando uma nova era no mercado imobiliário de luxo

Compradoras de alto patrimônio estão emergindo como uma força cada vez mais influente, impulsionando a demanda por edifícios com serviços completos, infraestrutura de bem-estar e propostas de lifestyle voltadas ao longo prazo.

21 de maio de 2026 por Abby Montanez, da ROBB REPORT | foto REPRODUÇÃO

Alexandra Newman
Alexandra Newman, diretora de vendas do empreendimento One Williamsburg Wharf.

A compra e venda de imóveis de luxo sempre foi tradicionalmente moldada pelas preferências de casais ricos, famílias tradicionais e compradores masculinos de alto poder aquisitivo. Mas uma mudança importante está acontecendo no topo do mercado: mulheres abastadas estão cada vez mais liderando compras, influenciando prioridades de design e, nesse processo, redefinindo o que significa viver com luxo.

De residências de US$ 6 milhões em Miami a condomínios à beira-mar no Brooklyn e apartamentos com serviço completo dentro de torres de hotéis cinco estrelas, mulheres de alta renda estão tomando algumas das maiores decisões imobiliárias do mercado, não apenas para si mesmas, mas também pensando em pais, filhos, investimentos e planejamento sucessório.

Segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis dos Estados Unidos (National Association of Realtors), as mulheres solteiras representam hoje cerca de 21% dos compradores de imóveis, contra apenas 9% dos homens solteiros. Mais de 20 milhões de mulheres solteiras possuem imóveis nos EUA, superando com folga os cerca de 14 milhões de homens solteiros proprietários.

No segmento de luxo, os números se tornam ainda mais expressivos. A Coldwell Banker aponta que mulheres com patrimônio superior a US$ 5 milhões já detêm 15% das casas de luxo no país, índice que, segundo corretores, segue em crescimento à medida que mais mulheres constroem riqueza de forma independente, seja por meio de carreiras executivas, empreendedorismo ou transferência de patrimônio entre gerações.

No empreendimento One Williamsburg Wharf, no Brooklyn, a diretora de vendas Alexandra Newman afirma que mulheres de alta renda se tornaram um dos grupos mais influentes entre os compradores do novo projeto à beira-mar, que reúne mais de 1.858 metros quadrados de áreas de lazer e serviços com vista para o East River.

“Definitivamente, estamos vendo uma mudança: antes, as mulheres apenas influenciavam as decisões, e agora são elas que decidem”, afirma Newman. “Em alguns casos, elas são as principais provedoras do casal e estão tomando as decisões sozinhas.”

Segundo ela, muitas das compradoras são empreendedoras e executivas que buscam edifícios capazes de funcionar como uma extensão de suas vidas pessoais e profissionais, usando as comodidades do condomínio tanto para encontros sociais quanto para receber clientes e investidores. “Essas mulheres não tomam decisões precipitadas. Elas analisam tudo de forma muito criteriosa, mas também buscam um edifício que ofereça um estilo de vida diferenciado”, diz.

O perfil das compradoras também vem se diversificando. Muitas estão adquirindo residências principais, enquanto outras compram apartamentos de temporada para viagens frequentes a Nova York ou adicionam condomínios ao portfólio de investimentos. Em diversos casos, mulheres mais velhas compram imóveis para ficar mais próximas de filhos e netos na cidade.

Newman cita o caso de uma jovem profissional que passou anos vivendo perto da família no Queens, economizando dinheiro e construindo patrimônio com imóveis herdados, até decidir comprar sozinha um apartamento de dois quartos à beira-mar no empreendimento.

“Ela escolheu por conta própria. Elas não estão esperando um grande acontecimento da vida para fazer uma compra imobiliária”, afirma.

Para Jane Shi, compradora de uma residência no 250 West 96th Street, no Upper West Side de Manhattan, luxo não significava adquirir o imóvel mais extravagante possível, mas investir em um ecossistema de lifestyle capaz de gerar valor no longo prazo para sua família. Com experiência em consultoria de gestão e private equity, ela liderou o processo de decisão do casal após a mudança de Chicago para Nova York.

“O ponto de partida para nós era entender o valor sustentável e os fatores de crescimento, tanto financeiros quanto pessoais”, afirma Shi. Antes de fechar negócio, ela visitou o prédio cinco vezes, observando não apenas acabamentos e planta, mas também a dinâmica entre os moradores e o funcionamento cotidiano do edifício. “Muitos prédios causam uma ótima primeira impressão, mas eu queria entender como eles funcionavam no dia a dia. Eles incentivam uma comunidade engajada ou são apenas estéticos?”, questiona.

Projetado por Thomas Juul-Hansen, o edifício conta com piscina de água salgada de 23 metros, cinema ao ar livre na cobertura, quadra de squash, spa, lounges gastronômicos e áreas voltadas para uma convivência multigeracional. “Acredito que as mulheres têm mais sensibilidade ao valor invisível de uma boa infraestrutura social”, diz Shi. “São aspectos difíceis de quantificar, mas que moldam profundamente a experiência.”

Em Miami, as mulheres também vêm ganhando protagonismo no mercado imobiliário de alto padrão. No Four Seasons Private Residences Coconut Grove, onde os preços partem de cerca de US$ 6 milhões, a diretora de marketing e vendas Christine Martinez de Castro afirma ter observado um aumento expressivo de mulheres liderando as compras. “Temos visto diversas compras conduzidas exclusivamente por mulheres”, diz. “Isso não significa necessariamente que elas sejam solteiras, mas são elas que tomam a decisão. Se a esposa se apaixona pelo Four Seasons, pronto. Não há discussão.”

O empreendimento reúne apenas 70 residências à beira-mar e oferece serviços como mordomo, refeições no apartamento, compras de supermercado, além de um circuito de spa inspirado na Roma Antiga, com hammams, piscinas de hidroterapia, salas de massagem e áreas para ioga.

Para muitas compradoras, parte do apelo está justamente nessa infraestrutura invisível. Residências de marca e torres com foco em hospitalidade funcionam como ecossistemas totalmente gerenciados, oferecendo concierge, limpeza, manobrista, manutenção e segurança 24 horas, permitindo que proprietários viajem com frequência ou dividam seu tempo entre diferentes casas sem se preocupar com a operação cotidiana.

Em Nashville, o movimento também ganha força. Kris Wylder, diretora de vendas do The Residences at The Nashville Edition, afirma que muitas mulheres passaram a enxergar imóveis de luxo como estratégia de construção de patrimônio no longo prazo, e não apenas como uma compra ligada ao estilo de vida.

“Revender imóveis pode ser emocionante e recompensador, mas também imprevisível”, afirma Wylder. “Manter os imóveis, especialmente em um mercado como Nashville, permite aproveitar a valorização e ainda gerar renda recorrente.”

O futuro empreendimento reunirá 84 residências privadas com serviços de hotel cinco estrelas, incluindo concierge, spa, simuladores esportivos, áreas para refeições privativas e lounges exclusivos para moradores. “Como investidora e mãe, meu principal objetivo é construir patrimônio para minha filha ao longo das próximas gerações”, afirma Wylder. “Essa perspectiva muda completamente a forma como avalio grandes decisões financeiras.”

As mulheres também vêm remodelando o mercado de segundas residências de luxo por meio de modelos mais flexíveis de propriedade. Foi o caso da empreendedora Noel Hyun Minor, de Los Angeles, que encontrou na plataforma Pacaso uma alternativa para adquirir participação em casas de férias administradas profissionalmente em destinos como La Jolla e Park City.

“Uma segunda casa em um mercado de luxo parecia financeiramente inalcançável se tivéssemos que arcar com o custo integral da propriedade”, afirma Minor. O que começou com uma única participação evoluiu para três imóveis. “No fim, entendemos que era um investimento na família e na conexão.”

Em conjunto, essas movimentações revelam uma transformação mais ampla nas expectativas dos compradores de alto padrão. Cada vez mais, o mercado de luxo deixa de girar apenas em torno da ostentação e passa a valorizar funcionalidade, bem-estar, conveniência e experiências integradas ao cotidiano. “Há uma mudança das definições tradicionais de luxo para algo mais intencional, intuitivo e alinhado à vida real”, resume Wylder. “Hoje, trata-se menos de preservar tradições e mais de criar espaços que acompanhem a forma como as pessoas realmente vivem.”