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Entrevista

“Você não tem que ter poder, tem que empoderar toda a cadeia”, afirma Sylvia Coutinho

Primeira mulher a presidir um banco privado no Brasil fala sobre liderança, carreira, inteligência artificial e os aprendizados de uma trajetória construída em diferentes setores da economia.

21 de julho de 2026 por LIDE

 

Sylvia CoutinhoSylvia Coutinho, head do LIDE Mulher e a primeira mulher a presidir um banco privado no Brasil. (Foto: Divulgação)

Primeira mulher a presidir um banco privado no Brasil, Sylvia Coutinho construiu uma trajetória marcada por posições de liderança no mercado financeiro e chegou a comandar uma operação com 30 mil profissionais em 13 países. Após permanecer 11 anos à frente do UBS no Brasil e na América Latina, a executiva passou a levar sua experiência para os conselhos de grandes companhias, como Edenred e Carrefour.

Em entrevista a Bruno Meyer no Show Business, Sylvia falou sobre o pioneirismo feminino, a importância de abrir caminhos para outras profissionais e um modelo de gestão baseado na participação. Também abordou o impacto da inteligência artificial sobre as empresas, os desafios de conciliar carreira e família e os fatores que considera determinantes para avançar no mundo corporativo.

Você chegou a liderar mais de 30 mil profissionais. Isso representa muito poder?

Na época do HSBC, eu liderava a área de varejo para a América Latina. Estávamos em 13 países, com 30 mil funcionários, e você precisa liderar por meio das pessoas. Há líderes trabalhando com você e conduzindo essas equipes, ao mesmo tempo que você precisa permanecer perto da ponta.

É um projeto grande e interessante. Reunir tantas pessoas em torno de um objetivo comum é muito motivador, mas você só consegue fazer isso quando tem, na liderança abaixo de você, pessoas que vêm junto.

É claro que você precisa ter uma visão de futuro e saber como as coisas vão caminhar, mas as pessoas precisam se sentir parte do processo. Desde quem está no topo da pirâmide, reportando diretamente a você, até quem está lá embaixo, todos precisam acreditar que podem fazer a diferença. Você não tem que ter poder, tem que empoderar todo mundo na cadeia.

Você foi a primeira mulher a presidir um banco privado no Brasil. Orgulha-se desse título?

Quando voltei ao Brasil, em 2005, provavelmente fui uma das primeiras mulheres, se não a primeira, a participar do comitê executivo de um banco, no caso o HSBC Brasil. Não é exatamente o título que me causa orgulho, mas a possibilidade de abrir portas.

Fico feliz por ter podido abrir essa porta. Depois de mim, outras mulheres vieram. Chegou um momento em que tínhamos duas ou três presidentes de bancos e eu até reuni todas para fazermos um programa de incentivo a mais mulheres no mercado financeiro.

O mais bacana é poder ser pioneira e abrir portas, porque, depois que o caminho está destrinchado e aberto, mais pessoas podem percorrê-lo. Meu orgulho vem, sobretudo, de ter aberto essa porta.

Em algum momento de sua trajetória, você foi desacreditada em uma posição de liderança por ser mulher?

No passado, era muito mais complicado do que é hoje. Sinceramente, nunca dei muita atenção para isso. Em geral, eu era a única mulher na sala e fui a primeira a assumir determinadas áreas que, até então, não eram comandadas por mulheres. Em um primeiro momento, sempre havia desconfiança.

Quando voltei ao Brasil e me tornei a primeira mulher no comitê executivo do HSBC, essa desconfiança também existia. Mas você segue em frente, faz o que sabe fazer e se afirma. No fundo, as pessoas querem alguém que agregue valor, dê ideias, tenha liderança, consiga executar o que precisa ser feito e entregue resultados.

Como é atuar em negócios tão diferentes, do mercado financeiro ao agronegócio e ao varejo alimentar?

Recentemente, juntei-me ao conselho do Carrefour e estou muito feliz. O varejo sempre foi uma área que me fascinou. Uma característica interessante do mercado financeiro é estar na intersecção de tudo. Você interage com todos os setores da economia.

Atuei em banco de investimento, ajudando muitas empresas em processos de abertura de capital e fusões e aquisições. Também passei pelo varejo bancário, que tem uma relação muito forte com a tecnologia. Dessa forma, você acaba conhecendo muitos setores da economia e adquire uma visão bastante abrangente.

Outro aspecto é o desafio intelectual de participar de diferentes conselhos e acompanhar o progresso de empresas envolvidas em outros segmentos. Você aprende muito e permanece conectada ao que está acontecendo.

A tecnologia permeia tudo isso, especialmente a inteligência artificial. Essas empresas têm muito a se beneficiar com a IA. Estou extremamente animada com todo o potencial que ela poderá trazer.

Por que você decidiu fazer uma especialização em inteligência artificial?

Estamos diante de uma revolução. Quis fazer essa imersão porque já havia me envolvido com tecnologia no passado. Sou engenheira, fiz programação e sempre me interessei por física e matemática. Quando fui expatriada pelo Citibank, trabalhei por dois anos na área de tecnologia, em Los Angeles. Acompanhei o despertar da internet e sempre tive fascínio pelo tema.

Mas eu queria abrir o capô e colocar a mão na graxa. Queria entender os modelos e a sequência que nos levou aos grandes modelos de linguagem, até para perceber aonde tudo isso pode chegar.

Eu era a única CEO do grupo, porque entramos profundamente nos modelos. Tivemos três professores conosco durante todo o período e estudamos tanto o impacto da tecnologia nas organizações quanto as questões regulatórias, os riscos e os próprios modelos. Hoje, estou fazendo vibe coding, porque acredito que, para compreender aonde podemos chegar, é preciso ter essa visão do processo.

Como as empresas devem incorporar essa tecnologia?

A inteligência artificial será tão poderosa para as empresas quanto for a sua centralidade e quanto mais holística for sua implantação. As companhias precisam se preparar. A base de dados é fundamental; dados são tudo. É preciso concatenar essas informações de maneira inteligente para que a tecnologia realmente permeie e ajude a organização.

A China foi um grande fator deflacionário para o mundo quando houve a migração industrial em busca de uma produção mais barata. Para mim, o novo grande fator deflacionário será a inteligência artificial, porque ajudará as empresas a fazer muito mais com menos e, portanto, a reduzir significativamente os custos, entregando inclusive muito mais do que conseguem hoje.

Ao mesmo tempo, a IA vai empoderar os pequenos. Sempre olhamos para a possibilidade de os grandes concentrarem riqueza, mas a tecnologia também permitirá que uma pequena empresa tenha acesso a agentes e informações pelos quais jamais conseguiria pagar.

No UBS, eu tinha um comitê executivo fantástico, com profissionais de altíssimo nível. Uma pequena empresa não consegue manter uma equipe desse calibre. Hoje, com agentes de inteligência artificial, ela pode ter acesso a um excelente advogado ou a outros profissionais altamente qualificados. Isso abrirá perspectivas incríveis.

Como você conciliou uma rotina intensa de trabalho com a vida familiar?

Eu não teria chegado aonde cheguei nem teria sido expatriada se não tivesse um grande parceiro, que é meu marido. Estamos casados até hoje, então é possível conciliar um grande cargo com uma relação de 40 anos.

Quando fui convidada para trabalhar fora, ele estava em um banco no Brasil e aceitou me acompanhar. Vemos muitas mulheres acompanhando a carreira internacional dos homens, mas é muito difícil encontrar o contrário. Ele foi um grande parceiro e um pai muito presente, inclusive nas questões relacionadas à escola dos nossos filhos, porque eu viajava muito e nem sempre podia estar presente.

Quando eu estava em casa, estava realmente em casa. Mesmo com a conexão constante que existe hoje, acredito que, quando você está com seus filhos, precisa estar presente.

A carreira sempre foi muito importante para mim. Trabalho muito e gosto do que faço. Não sentia aquilo como extenuante porque estava envolvida e gostava tanto que, até hoje, não consigo ficar parada.

Mas é preciso entender que, na vida, existem bolas de borracha e bolas de cristal. O trabalho é uma bola de borracha: se algo acontece, você muda e encontra outro emprego. As bolas de cristal são os relacionamentos com seus filhos, sua família e seu marido. Quando uma delas quebra, é difícil juntar os pedaços.

Uma coisa que me ajudou foi perceber quando estava puxando demais a corda de um lado e tentar equilibrar. Não é fácil, porque você está sempre fazendo esse malabarismo.

A tecnologia ajudou nesse equilíbrio?

Hoje é até mais fácil, porque podemos trabalhar remotamente. Quando voltei a ser expatriada, como responsável pela gestão de ativos do HSBC para as Américas e os mercados emergentes, meu filho e meu marido permaneceram no Brasil. Eu não queria tirá-lo novamente da escola, porque ele já havia passado por várias mudanças.

Nós nos encontrávamos pelo Skype. Eu chegava a Nova York, abria o computador e jantávamos juntos. Quando conheci o fundador do Skype, disse a ele: “Você salvou minha vida e a minha vida familiar”. A tecnologia permite que você esteja longe e, ao mesmo tempo, perto. No passado, isso não era possível.

O poder é solitário?

Sim e não. Depende muito do seu estilo de gestão. Sempre tive uma gestão bastante participativa e nunca me considerei mais importante do que as pessoas que trabalhavam comigo.

Consegui criar ambientes nos quais as pessoas se sentiam parte do processo e podiam opinar, concordar ou discordar. Quando pensamos em diversidade, é disso que estamos falando: diversidade de ideias e de contribuições.

Com uma gestão mais participativa, quero acreditar que a liderança se torna menos solitária, porque as pessoas se sentem parte do processo. É claro que, quando você está liderando, há decisões que precisa tomar sozinho, inclusive algumas muito duras.

Tive momentos em que precisei demitir 2 mil ou 3 mil pessoas. É muito difícil. Ainda assim, quando você compartilha as razões pelas quais as decisões estão sendo tomadas, reúne as pessoas e consegue o apoio de todos, mesmo diante de escolhas difíceis.

Qual é o principal ensinamento para lidar com decisões tão difíceis?

As empresas devem ser racionais. A meritocracia precisa orientar as decisões e, em determinados momentos, algumas medidas precisam ser tomadas.

Se as decisões são corretas, foram bem pensadas e existe consenso de que aquele é o melhor caminho, torna-se muito mais fácil tomá-las. Sempre fiz questão de estar totalmente confortável com as decisões que tomava, porque elas precisavam fazer sentido. Caso contrário, eu brigava com quem estava acima de mim e dizia que não faria aquilo.

Você precisa acreditar que as decisões e as ações são corretas. Quando acredita, é muito mais fácil.

O que foi determinante para que você alcançasse sucessivas promoções ao longo da carreira?

Venho de uma época em que não existia todo o aparato de relacionamento profissional que temos hoje. Sempre fui muito curiosa, queria aprender e gostava de novos desafios. Saía constantemente da minha zona de conforto e, a cada dois anos e meio, acabava mudando de área.

Em 90% das situações, fui convidada por alguém que me conhecia ou havia me visto trabalhar. Nunca achei que precisava saber ou dominar tudo. Muitas vezes, as mulheres são muito mais exigentes consigo mesmas do que os homens.

Sempre procurei entender não apenas a área em que trabalhava, mas tudo o que acontecia ao redor: a companhia, suas variáveis e os setores com os quais interagíamos. Por meio dessa curiosidade e desse engajamento, construí uma rede de relacionamentos. Muitas oportunidades surgem porque alguém se lembra de você.

Ainda hoje, essa rede é muito importante. Lamento que, com o trabalho remoto, tenhamos perdido parte da riqueza dos relacionamentos dentro da empresa e do aprendizado com profissionais mais experientes.

Também é possível chamar uma parte disso de sorte, mas as conexões e as oportunidades acontecem quando você está fazendo a sua parte. Para assumir um novo trabalho, primeiro é preciso ter entregado resultados na função anterior. Você merece uma nova oportunidade pela meritocracia, mas muitas delas acontecem também pelos relacionamentos construídos dentro da empresa e pela sua capacidade de se tornar visível, seja pelos resultados, seja pelos contatos.

Qual é o futuro das agências bancárias?

Cada vez mais pessoas realizam suas operações bancárias remotamente, portanto a parte transacional das agências tende a acabar — e isso já está acontecendo. A agência se transforma em um espaço mais relacional, um ponto de interação de nível mais elevado.

A interação operacional foi deslocada e já não está mais na agência. Como manter um espaço físico tem um custo elevado, quem se desloca até ele precisa encontrar um valor no relacionamento que justifique essa visita.

Quem são suas referências no mundo dos negócios e na vida?

Admiro os empreendedores que têm uma visão e seguem em frente. Muitos deles estão na área de tecnologia. Lembro que estava na Califórnia quando Jeff Bezos começou a Amazon como uma livraria. Pena que não comprei ações naquela época.

São pessoas com visão de futuro que conseguem avançar apesar dos muitos percalços. Eu me considero uma empreendedora. Acho que nasci para empreender, embora tenha permanecido no mundo corporativo durante a maior parte da carreira.

Também é possível ser um empreendedor corporativo e, às vezes, isso é até mais difícil. Quando você é dono da própria empresa, faz o que considera necessário. No mundo corporativo, precisa convencer muito mais gente a segui-lo.

Admiro os empreendedores corporativos, pessoas que têm uma visão de futuro e não se limitam a seguir o que já existe. Essas são as pessoas que admiro.