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Economia

América Latina chega a 19 economias de alta renda, mas Brasil segue fora do grupo

Classificação do Banco Mundial mostra avanço regional desde 1987, enquanto grandes países continuam limitados pela baixa produtividade, pelo investimento insuficiente e pela informalidade.

22 de julho de 2026 por LIDE

 

chalo-gallardo-eXL2DYVmq-0-unsplashChile está entre os países latino-americanos classificados como economias de alta renda. (Foto: Unsplash)

A América Latina e o Caribe passaram de apenas três economias de alta renda em 1987 para 19 em 2025, mas o avanço não alcançou as maiores populações da região. Países como Brasil, México, Argentina, Colômbia e Peru continuam presos à chamada “armadilha da renda média”, marcada pela dificuldade de transformar crescimento econômico em ganhos sustentáveis de produtividade e renda.

A classificação atualizada do Banco Mundial, que reúne 218 economias e permanecerá como referência até junho de 2027, considera a renda nacional bruta per capita do ano anterior. O levantamento divide os países e territórios entre baixa renda, renda média-baixa, renda média-alta e alta renda, conforme informações da Bloomberg.

Embora o número de economias latino-americanas na faixa mais elevada tenha crescido, boa parte dessa expansão está concentrada em pequenos países e territórios do Caribe, beneficiados pelo turismo, pelos serviços financeiros, pela energia e por outras atividades externas com peso significativo na renda per capita.

“Se considerarmos a população, a América Latina continua teimosamente na categoria de renda média. O número aumenta, mas a massa não se move”, afirmou Jonathan Fortun, economista do Instituto de Finanças Internacionais (IIF).

O Brasil permanece no grupo de renda média-alta. Para Fortun, elevar a renda média de 213 milhões de brasileiros exige ganhos de produtividade disseminados pela economia, que não podem ser substituídos pelo desempenho de um único setor.

A classificação do Banco Mundial também é influenciada pela cotação das moedas e pelos preços das commodities. Como o limite de renda é calculado em dólares e reajustado anualmente, uma valorização cambial ou uma melhora nos termos de troca pode levar uma economia a superar a faixa estabelecida sem que tenha ocorrido avanço equivalente na produtividade.

A Guiana exemplifica essa diferença. O crescimento acelerado da exploração de petróleo multiplicou a renda per capita do país em poucos anos, mas Fortun avalia que o movimento representa “mais um salto contábil do que desenvolvimento”.

Emanoelle Santos, analista de mercados da plataforma de investimentos XTB, atribui a evolução regional a uma combinação de crescimento, estabilização macroeconômica, abertura comercial, expansão do turismo, desenvolvimento dos serviços financeiros e aumento da renda per capita em pequenas economias caribenhas.

“A região superou parte da deterioração dos anos 80, quando a inflação, a dívida e a instabilidade cambial limitavam a convergência”, afirmou. A analista ressalta, porém, que o Banco Mundial classifica economias, e não apenas países soberanos, incluindo territórios de baixa população, forte exposição ao turismo, serviços offshore ou vínculos institucionais com países desenvolvidos.

Os países que chegaram à alta renda

Chile, Uruguai, Panamá e Costa Rica estão entre os países latino-americanos classificados como economias de alta renda. A Costa Rica ingressou nesse grupo no relatório divulgado no ano passado.

Esses países combinaram estabilidade macroeconômica e institucional, abertura comercial e especialização em setores capazes de atrair investimentos e gerar receitas externas. O Panamá desenvolveu um polo logístico e financeiro em torno do Canal, enquanto a Costa Rica avançou na produção de dispositivos médicos e na prestação de serviços de alto valor.

O Chile associou sua liderança na produção de cobre a uma política fiscal responsável e a uma economia aberta. O Uruguai, por sua vez, fortaleceu suas instituições e desenvolveu um complexo agroexportador e de serviços.

“Nenhum deles tentou fazer de tudo. Escolheram um caminho e defenderam as instituições em torno desse caminho, tendo a abertura como disciplina competitiva”, disse Fortun. Na avaliação do economista, o tamanho reduzido favorece a renda per capita, mas a credibilidade transformada em previsibilidade foi decisiva para esses países.

A entrada na categoria de alta renda, contudo, não elimina problemas sociais. Paula Chaves, analista de mercados da Greyhound Trading, observa que algumas dessas economias ainda apresentam desigualdades e desafios estruturais. Por isso, a classificação é uma referência econômica, mas não resume isoladamente o nível de desenvolvimento ou a qualidade de vida.

A armadilha das grandes economias

O tamanho do mercado não garante a chegada às faixas mais elevadas de renda. Nas grandes economias latino-americanas, o peso da população torna mais difícil aumentar a renda média, enquanto a informalidade, o baixo investimento e períodos de instabilidade econômica limitam os avanços.

Brasil, México, Argentina, Colômbia e Peru aproveitaram o superciclo das commodities e a migração de trabalhadores do campo para outras atividades, mas não conseguiram criar ganhos suficientes em inovação, produtividade e capital humano.

“Essas economias esgotaram os ganhos fáceis, o deslocamento de mão de obra do setor agrícola e o superciclo das commodities, sem construir, posteriormente, o motor de inovação e capital humano que distingue a renda média-alta da alta”, afirmou Fortun.

O grande mercado interno pode ainda reduzir a pressão para que as empresas disputem espaço internacionalmente. Dessa forma, muitas companhias priorizam o mercado doméstico em vez de buscar maior competitividade global.

Para Emanoelle Santos, um ciclo favorável de commodities ou uma valorização temporária da moeda não são suficientes para levar essas economias à faixa de alta renda. A mudança exige vários anos de crescimento real da renda per capita, inflação controlada, estabilidade cambial, aumento dos investimentos e avanços consistentes de produtividade.

Educação técnica, segurança jurídica, maior concorrência, profundidade financeira e regras fiscais confiáveis também são consideradas fundamentais para sustentar esse processo. Sem essas transformações, o Brasil e outras grandes economias da região podem até se aproximar temporariamente do limite de alta renda, mas continuarão vulneráveis a retrocessos quando as condições externas mudarem.