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Entrevista

Lei do Bem impulsiona investimentos em P&D e supera R$ 50 bilhões no Brasil

Avanço de 457% em uma década consolida política como pilar da inovação, mas especialistas apontam desafios em gestão e adesão empresarial.

26 de março de 2026 por Revista LIDE

Rodrigo Miranda_CEO da G.A.C. BrasilRodrigo Miranda, CEO da G.A.C. Brasil. (Foto: Divulgação)

O Brasil vive um novo ciclo de amadurecimento em inovação. Impulsionados pela Lei do Bem, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) avançaram de forma consistente ao longo da última década, posicionando o país em um patamar mais robusto de competitividade tecnológica.

O volume reportado via Lei do Bem saiu de cerca de R$ 9 bilhões para mais de R$ 50 bilhões em dez anos, segundo dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O balanço mais recente, referente a 2024, aponta 14.877 projetos aprovados, com participação de 4.252 empresas e uma renúncia fiscal de R$ 11,98 bilhões — números que consolidam o instrumento como eixo central da política de inovação no país.

“Os números recordes divulgados pelo MCTI reforçam que a Lei do Bem é uma política pública sólida e extremamente eficiente. Esse aumento expressivo no volume de investimentos demonstra que, quando bem utilizada, a legislação gera resultados concretos em inovação e produtividade, impactando diretamente o crescimento econômico do país”, avalia Rodrigo Miranda, CEO da G.A.C. Brasil, consultoria que faz parte do G.A.C. Group, multinacional francesa presente em seis países.

Apesar do avanço, especialistas apontam que ainda há espaço relevante para expansão. A adesão ao programa exige mais do que investimento: passa por estruturação, governança e maturidade em gestão da inovação.

“Muitas organizações estão aptas a aproveitar os benefícios da Lei do Bem, mas não apresentam projetos por desconhecimento dos mecanismos de submissão ou por não terem um sistema de gestão da inovação eficiente. A adoção de uma gestão da inovação eficaz, baseada em processos estruturados, indicadores claros, governança qualificada e uso estratégico de incentivos fiscais, pode ser o ponto de virada para elas”, avalia.

A evolução entre 2014 e 2024 revela um salto consistente: enquanto a renúncia fiscal cresceu cerca de seis vezes, o número de empresas participantes quase quadruplicou. O resultado é a consolidação de quase 15 mil iniciativas anuais, indicando que a Lei do Bem deixou de ser um instrumento complementar para se tornar um dos pilares da estratégia nacional de P&D.

No recorte regional, o Sudeste segue concentrando a maior parte dos investimentos, com 2.425 empresas e 8.556 projetos, totalizando R$ 36,5 bilhões em aportes e R$ 8,4 bilhões em renúncia fiscal. Em contraste, a região Norte registra os menores indicadores, com 82 empresas e 347 projetos, somando cerca de R$ 1,3 bilhão em investimentos.

O Centro-Oeste contabiliza 186 empresas e 516 projetos, com renúncia fiscal de R$ 584,9 milhões. O Nordeste aparece com 214 empresas e 567 projetos, totalizando R$ 368,1 milhões em incentivos. Já o Sul reúne 4.891 projetos, com renúncia fiscal de R$ 2,2 bilhões, consolidando-se como segundo maior polo de inovação no país.

“Esse balanço demonstra, mais uma vez, a força e concentração da inovação no Sudeste, enquanto a disparidade regional segue como ponto de atenção, com a região Norte registrando a menor participação. Isso reforça a visão de que é fundamental atuar na disseminação do conhecimento e auxiliar as empresas, de Norte a Sul, a estruturarem processos e governança para que possam, de fato, aproveitar o incentivo fiscal e expandir o impacto positivo do P&D em escala nacional, garantindo um crescimento mais equilibrado”, avalia Rodrigo Miranda.

Nos últimos 10 anos, os investimentos em P&D cresceram quase 500%. O que explica esse salto tão expressivo e quais setores estão puxando essa nova onda de inovação no Brasil?

Esse avanço deixa claro que há uma mudança relevante no comportamento das corporações. A inovação deixou de ser agenda paralela e passou a ser variável direta de competitividade. O volume reportado via Lei do Bem saiu de cerca de R$ 9 bilhões para mais de R$ 50 bilhões em uma década.

O principal vetor é a incorporação da inovação na operação, como automação, dados, digitalização industrial, novos produtos e eficiência de processos.

Os setores de mercado que são mais dinâmicos e têm um olhar mais próximo da inovação são químico, farmacêutico, máquinas e equipamentos e eletroeletrônicos, mas também podemos destacar, de forma muito consistente, os setores automotivo e de energia, onde o ganho tecnológico já impacta diretamente o desempenho das empresas.

A G.A.C. atua justamente na estruturação da inovação dentro das empresas. Onde as companhias brasileiras ainda mais erram: na estratégia, na execução ou na cultura?

O erro mais comum é um misto de todos. Acredito que está, justamente, na desconexão entre estratégia, execução e cultura.

Muitas empresas têm intenção e discurso, mas não transformam isso em governança, processo, priorização e métricas que sejam claras. Na prática, investem em inovação sem conseguir converter isso em resultado.

E aí entra um ponto, que é a gestão. Sem dúvidas é o principal gargalo. Isso porque sem método e acompanhamento apropriado, a inovação tende a virar custo. E o correto é que ela se transforme em vantagem competitiva para o negócio. E sem visão do real impacto que ela traz para o negócio, o empresário prioriza outros investimentos com resultados mais imediatos.

Como o Brasil se posiciona hoje em relação a mercados mais maduros, como a França, quando falamos de gestão da inovação e uso de incentivos como a Lei do Bem?

O Brasil avançou em instrumentos e capacidade de execução, mas ainda está atrás em maturidade de gestão e intensidade de investimento em P&D. A França, por exemplo, investe proporcionalmente mais e opera com maior previsibilidade nesse tema.

A diferença principal está no uso dos incentivos. Lá, eles são incorporados com mais naturalidade à estratégia empresarial. Aqui, a Lei do Bem é robusta, mas ainda é subutilizada por receio fiscal, insegurança jurídica ou falta de organização interna.

Em muitos casos, o problema não é a falta de incentivo, mas a falta de estrutura das empresas para utilizá-lo de forma estratégica.

A matriz francesa traz uma visão internacional importante. Quais práticas globais de inovação já estão sendo tropicalizadas no Brasil e o que ainda falta avançar?

O principal movimento é sair da inovação informal, que depende de pessoas e inspiração, para uma inovação que classificamos como gerenciada, ou seja, aquela que precisa de sistema e processos muito bem estruturados.

As empresas começam a adotar práticas como definição de estratégia, governança clara, indicadores e documentação dos projetos, o que aumenta tanto a eficiência quanto a capacidade de capturar incentivos. O que ainda falta avançar é relativamente direto e tem a ver com uma liderança que assuma o protagonismo. Destacaria também questões como métricas bem definidas e mais consistentes. Por último, uma cultura e disciplina que ajudem a inserir a inovação como uma rotina nas empresas.

A G.A.C. vem ampliando sua atuação no país. Quais são os principais vetores de expansão no Brasil hoje: novos setores, novas regiões ou maior sofisticação dos projetos?

O principal vetor é a sofisticação da demanda. As empresas não buscam mais apenas enquadramento fiscal. Elas querem estruturar a inovação de forma integrada, conectando estratégia, governança e eficiência financeira.

Esse movimento explica tanto a expansão em setores mais complexos, como automotivo, energia e indústria, quanto o crescimento geográfico: hoje contamos com operação em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Fortaleza, e estamos estudando a abertura de novos escritórios, o que ajuda a acompanhar a capilarização da demanda.

À medida que a inovação passa a impactar diretamente o resultado das empresas, é natural que cresça a exigência interna por estrutura e diminua o espaço para improviso.

Inovação deixou de ser apenas tecnologia e passou a envolver governança, dados e cultura organizacional. Como estruturar um modelo realmente sustentável de inovação dentro das empresas?

As empresas começam a ver que ideias não sustentam inovação. O que sustenta é gestão. O diferencial não está em apenas gerar boas iniciativas, mas em transformar inovação em resultado, mas sem esquecer de estar em linha com a estratégia da empresa.

Outro ponto é ter uma governança adequada e processos muito bem definidos. Por fim, as empresas não podem esquecer de acompanhar os resultados e aprender com as falhas, mas sem perder tempo e ser consistente nos aprendizados.

Além disso, o uso estratégico de instrumentos como a Lei do Bem ajuda a sustentar o ciclo de inovação ao longo do tempo.

Olhando para o cenário internacional, quais são as grandes tendências em inovação que devem impactar diretamente o Brasil nos próximos anos e como as empresas podem se preparar desde já?

Classifico três movimentos que realmente devem impactar diretamente o ambiente empresarial. A IA está aí, é uma realidade e o foco estará cada vez maior em produtividade, engenharia e supply chain. Há também um tema em muita evidência, que é a decisão orientada a dados e isso está exigindo das empresas uma maior cobrança por métricas e retorno sobre os investimentos. E como qualquer inovação, é necessário que as empresas tenham resiliência tecnológica.

A mensagem que precisa ficar é que as companhias precisam organizar portfólio, governança e integração entre áreas. Quem não fizer isso, está fadado a capturar menos valor da inovação, mesmo investindo mais.