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Mercado imobiliário

Retorno aos escritórios impulsiona locação, mas investidores seguem cautelosos na América Latina

Segmento corporativo concentra 18% do interesse de alocação neste ano, ante 40% do setor de logística, segundo a CBRE.

05 de março de 2026 por LIDE

São Paulo_PixabaySão Paulo registrou o segundo melhor resultado dos últimos cinco anos em absorção líquida em 2025  (Foto: Pixabay)

Seis anos após o início da pandemia de covid-19, o regime de trabalho presencial voltou a se consolidar nas empresas brasileiras, e o mercado imobiliário de escritórios já reflete essa mudança nos indicadores, segundo a Bloomberg Línea.

São Paulo, maior mercado corporativo do país, registrou em 2025 o segundo melhor resultado dos últimos cinco anos em absorção líquida — indicador que mede a diferença entre o total locado e o devolvido. Foram 289 mil metros quadrados absorvidos no ano passado, de acordo com dados da CBRE.

“Houve um represamento de demanda de empresas que cresceram na pandemia e não estavam buscando escritórios devido ao home office. É um movimento que desaguou nos últimos dois anos, com as companhias voltando a locar espaços”, afirmou Edson Ferrari, vice-presidente da CBRE Brasil, em entrevista à Bloomberg Línea.

Entre os casos recentes está o Nubank, que anunciou no fim do ano passado a transição gradual para o modelo híbrido após cinco anos de política flexível. A instituição ocupou 14.957 m² no edifício Capote 210, em Pinheiros, contribuindo para que o bairro registrasse a maior redução de vacância da cidade em 2025, com queda de 14,4 pontos percentuais, segundo a consultoria Binswanger.

Apesar da retomada, o movimento ainda não foi suficiente para reativar de forma ampla o apetite dos investidores por real estate corporativo. O segmento concentra 18% do interesse de alocação na América Latina neste ano, enquanto o setor de logística lidera com 40%, segundo a pesquisa Investor Sentiment Survey, da CBRE, antecipada à Bloomberg Línea.

“A volta para o escritório está sacramentada e vemos preços cada vez melhores, com o segmento ganhando tração nos próximos anos. Mas os fundos estavam sobrealocados no setor quando veio a pandemia. Então, observamos primeiro a queda da vacância antes que o investimento volte, o que ainda pode levar algum tempo”, avaliou Ferrari.

Levantamentos de outras consultorias apontam redução no número de novos projetos e desaceleração na oferta. Relatório da Cushman & Wakefield estima que a adição de novo estoque classe A em 2025 foi limitada e concentrada em poucos mercados, “confirmando um ciclo de desenvolvimento cauteloso”. Em São Paulo, foram adicionados 49.908 m² no ano passado, 35% abaixo dos 76.718 m² registrados em 2024.

Já a Newmark estimou que o crescimento de 15,9% dos estoques ficou abaixo da expectativa, atingindo o nível mais baixo desde 2012. Como consequência, o preço médio dos escritórios na cidade subiu 4% na comparação anual, para R$ 115,2 por metro quadrado ao mês no fim de 2025.

Segundo a Cushman, São Paulo mantém o metro quadrado mais caro da América Latina, em torno de US$ 26,3 por mês, alta de 20% no acumulado de 2025. “A tendência de preços ao longo de 2025 confirma um cenário no qual os ajustes de alta se concentraram em mercados e regiões com fundamentos mais sólidos, enquanto, naqueles com maior disponibilidade, os valores tenderam a se estabilizar ou a se ajustar de forma mais gradual”, informou o relatório.

Os eixos mais disputados seguem concentrados nas avenidas Brigadeiro Faria Lima e Juscelino Kubitschek. No eixo financeiro, a vacância encerrou o ano em 9,2%, com preço médio pedido acima de R$ 200 por m² mensais. Em trechos mais valorizados da Faria Lima, contratos chegam a R$ 420 por m² ao mês.

IA no radar dos investidores

Apesar da recuperação, investidores monitoram o impacto potencial da inteligência artificial sobre a demanda por escritórios. O temor é que a adoção da tecnologia reduza quadros de funcionários e, consequentemente, a necessidade de espaço físico.

A própria CBRE foi impactada pelo chamado “IA scary trade” em fevereiro, quando suas ações caíram 20% em dois pregões após a divulgação de resultados, mesmo com desempenho acima do esperado.

O CEO Bob Sulentic afirmou que é possível que a IA reduza a demanda por escritórios no longo prazo, mas destacou que não há evidências de disrupção no negócio principal da companhia. “Estamos bastante confiantes de que o negócio é impulsionado pelo pensamento estratégico e criativo de nossos brokers. E acreditamos que isso continuará sendo verdade – não vimos nenhuma evidência em contrário”, afirmou.

Ferrari disse que a CBRE Brasil não identificou clientes que tenham reduzido significativamente sua área ocupada como consequência direta da adoção de IA. “Vemos empresas que tinham 30 pessoas numa determinada área, por exemplo, que foi reduzida a cinco pessoas questão de eficiência. Mas são companhias que crescem em outras frentes, e continuam locando mais área de escritório”, afirmou.

A Cushman & Wakefield avalia que mercados e edifícios concentrados em funções de back-office ou tarefas repetitivas são mais suscetíveis a sofrer pressão estrutural de demanda. “Para muitas organizações, um modelo híbrido se tornará mais atraente, com uma área central menor, otimizada para a tomada de decisões e a cultura organizacional, apoiada por uma capacidade flexível que pode absorver a volatilidade – picos de crescimento, equipes de projeto, entradas em novos mercados e reorganizações – sem a necessidade de compromissos de longo prazo", afirmou Richard Pickering, diretor de previsão estratégica e inteligência da consultoria, em relatório.