Investidores apostam em dívidas inadimplentes em busca de retornos mais altos, aponta estudo
Estudo mostra que investidores buscam retornos mais altos em operações cada vez mais sofisticadas, com foco crescente em ativos corporativos.

Jamiu Antunes, sócio-líder de Estratégia e Transações para Serviços Financeiros da EY-Parthenon. (Foto: Divulgação)
Os descontos elevados e o potencial de retorno superior são os principais fatores que impulsionam os investimentos em ativos problemáticos no Brasil. É o que mostra o estudo Panorama do Mercado de Ativos Problemáticos 2026, elaborado pela EY-Parthenon, segundo o qual 40% dos entrevistados apontam essa combinação como a principal motivação para ingressar nesse mercado.
Na sequência, 30% dos participantes citaram a maximização do negócio de recuperação de crédito como principal atrativo, reforçando o caráter estratégico desses ativos para ampliar escala, eficiência e previsibilidade nas recuperações. Outros 21% destacaram a busca por alternativas de investimento e diversificação, enquanto 9% apontaram a oferta recorrente de carteiras como fator determinante para manter um fluxo constante de oportunidades.
Os chamados ativos problemáticos são caracterizados pela baixa liquidez, gestão complexa e dificuldade de conversão em caixa. Entre eles estão carteiras de crédito não performadas, recebíveis, legal claims, precatórios, títulos judiciais e ativos retomados como garantia.
A pesquisa foi realizada entre fevereiro e março deste ano com profissionais envolvidos na venda e compra de créditos, estruturação de operações e gestão de recursos de terceiros. Entre os respondentes, 50% administram carteiras de até R$ 5 bilhões, 36% possuem portfólios entre R$ 5 bilhões e R$ 30 bilhões, e 12% operam com volumes superiores a R$ 30 bilhões em ativos problemáticos.
No universo das carteiras de créditos não performadas, 67% dos entrevistados demonstraram preferência por ativos ligados a pessoas jurídicas, incluindo operações single name, corporativas, de middle market e de origem falimentar. Segundo o estudo, o movimento reforça a tendência de busca por operações com tíquete médio mais elevado.
As expectativas para os próximos 12 meses indicam continuidade desse cenário. Cerca de 30% dos participantes esperam transações entre R$ 50 milhões e R$ 150 milhões, enquanto outros 30% projetam operações entre R$ 150 milhões e R$ 300 milhões. Já 18% apostam em negociações superiores a R$ 300 milhões, e 21% estimam operações de até R$ 50 milhões.
Em relação aos descontos praticados, 36% dos entrevistados esperam operações com deságio entre 80% e 90% sobre o valor de face dos ativos. Outros 18% projetam descontos entre 90% e 95%, enquanto 9% apontam deságios entre 95% e 99%. Também 18% esperam descontos entre 70% e 80%, e o mesmo percentual acredita em reduções inferiores a 70%.
As projeções de retorno permanecem elevadas. Para 38% dos respondentes, a taxa de retorno esperada nos próximos 12 meses deve superar 30%. Outros 38% estimam ganhos entre 20% e 30%, enquanto 16% apontam retornos entre 10% e 20%. Apenas 9% acreditam em rentabilidade inferior a 10%.
"O cenário econômico é desafiador com a Selic alta há muito tempo. Isso tem criado uma pressão muito forte no orçamento das famílias e no caixa das empresas. O resultado é a elevação da inadimplência de pessoas físicas e jurídicas", afirma Jamiu Antunes, sócio-líder de Estratégia e Transações para Serviços Financeiros da EY-Parthenon.
Segundo o executivo, esse ambiente tem ampliado o interesse pela cessão de crédito, tanto por parte de instituições que buscam vender ativos problemáticos quanto de investidores em busca de carteiras mais rentáveis. "Os resultados do estudo demonstram amadurecimento do setor e abertura a estruturas complexas envolvendo diferentes perfis de risco e agentes. O mercado está se posicionando em operações mais sofisticadas, com foco em ativos corporativos, maior tolerância ao risco e busca por retornos elevados", conclui.