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Taxas de juros futuras avançam com disparada nos mercados globais de renda fixa

15 de maio de 2026 Arícia Martins, Estadão Conteúdo

Ainda que o quadro eleitoral tenha ficado mais embaralhado e continue no radar de investidores, com denúncias envolvendo Flávio Bolsonaro e dúvidas sobre a viabilidade de sua candidatura à Presidência, o derretimento dos ativos globais foi o maior detrator dos juros futuros na última sessão da semana.

As taxas percorreram o pregão em forte alta, contaminadas pela onda de "sell off" nos mercados externos de juros. Os temores inflacionários reforçados com o sentimento de que a guerra no Oriente Médio não terá um fim tão cedo, aliados ao aumento do risco político no Reino Unido e, em menor medida, à frustração com a falta de resultados concretos na cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping levaram a uma espiral negativa nos mercados de renda fixa. Nos Estados Unidos, os retornos de Treasuries longos saltaram 10 pontos-base, com a taxa do título de 30 anos superando 5%.

Por aqui, ainda com resquícios do "Flávio Day 2.0" nos prêmios, os vértices intermediários e longos voltaram a ficar acima de 14% com alguma folga, em seus maiores níveis neste ano. Na semana em que as taxas dispararam mais de 30 pontos-base na quarta-feira, devido a uma reportagem que mostrou que o filho de Jair Bolsonaro pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para uma cinebiografia sobre seu pai, o saldo foi de inclinação da curva a termo: o vencimento de janeiro de 2027 ganhou cerca de 20 pontos frente ao fechamento da última sexta-feira. Já os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 e de 2031 avançaram quase 70 pontos.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,18% no ajuste de quinta para 14,235%. O DI para janeiro de 2029 aumentou a 14,165%, vindo de 13,976% no ajuste de sexta-feira. O DI para janeiro de 2031 exibiu firme elevação, de 14,057% no ajuste a 14,25%.

Sem resolução para o conflito entre EUA e Irã, os preços do petróleo explodiram novamente, destaca Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, cenário que tem deixado os bancos centrais ao redor do mundo mais reticentes. Referência para a Petrobras, o contrato futuro do Brent para julho encerrou em alta de 3,35%, a US$ 109,26 o barril. No cômputo semanal, houve valorização de quase 8%.

Caso o Estreito de Ormuz continue efetivamente fechado e os estoques comerciais de óleo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) seguirem sendo consumidos no mesmo ritmo observado em abril, as reservas da commodity podem atingir níveis criticamente baixos até o fim de junho, alerta em relatório Hamad Hussain, economista de clima e commodities da Capital Economics. "Isso seria compatível com o Brent alcançando um pico nominal recorde, e poderia exigir cortes mais desordenados e economicamente danosos na demanda por petróleo", disse.

Com base em padrões passados, uma queda mensal de cerca de 100 milhões de barris nos próximos dois meses seria compatível com preços do Brent na média de US$ 130 a US$ 140 por barril em junho, estima Hussain.

Além do confronto no Golfo Pérsico, Argenta acrescenta que havia elevada expectativa sobre a reunião ocorrida ontem entre os presidentes dos EUA e da China, que terminou sem avanços na relação bilateral dos dois países. "Não teve nada de efetivo, nem na esfera geopolítica, nem nas relações comerciais. Não por acaso nas bolsas globais os setores que mais sofreram foram os relacionados à IA e tecnologia", observou.

No ambiente doméstico, dando seguimento aos relatos que envolvem a família Bolsonaro e o dono do banco Master, o The Intercept Brasil publicou que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro teria poder sobre os recursos financeiros levantados para o filme "Dark Horse", sobre a vida de seu pai. Flávio, por sua vez, concedeu entrevista à CNN Brasil, na qual defendeu que o irmão não recebeu dinheiro de Vorcaro.

Em um dia já negativo para a curva de juros, as taxas seguiram abrindo em igual intensidade em seguida aos dois eventos. Também sem impacto sobre os preços, o IBGE divulgou mais cedo que a atividade dos serviços registrou tombo de 1,2% entre fevereiro e março, aquém do piso das expectativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de -0,6%.