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Dólar sobe a R$ 5,25 com incertezas sobre cessar-fogo no Oriente Médio

26 de março de 2026 Antonio Perez, Estadão Conteúdo

Incertezas sobre as supostas negociações para um cessar-fogo no Oriente Médio, em meio a informações conflitantes vindas de Estados Unidos e Irã, aumentaram a percepção global de risco, levando investidores a abandonar bolsas e divisas emergentes para buscar abrigo na moeda norte-americana.

Por aqui, o dólar à vista avançou 0,69%, a R$ 5,2562, após máxima de R$ 5,2632. Em março, a divisa acumula valorização de 2,38% em relação ao real, que apresenta no período desempenho superior a seus principais pares, à exceção do peso colombiano. No ano, as perdas são de 4,24%.

"O dia foi bem volátil, com o mercado digerindo as falas dos dois lados da guerra, em um xadrez diplomático em que ninguém quer parecer fragilizado. O investidor está mais cauteloso, esperando uma definição, para voltar a montar posições em ativos de risco", afirma a analista de mercado internacional Isabella Hass, da W1 Capital.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Irã está "implorando por um acordo", ressaltando que as informações de que Teerã teria recusado um plano para cessar-fogo são falsas. Segundo Trump, os iranianos permitiram a passagem de oito navios petroleiros pelo Estreito de Ormuz, como "um presente" aos EUA.

O Irã teria classificado a proposta de cessar-fogo de Trump, com 15 pontos para negociações, de "enganosa", segundo a agência Tasnim. Para Teerã, o plano americano é apenas um meio para conter os preços do petróleo e ganhar tempo para uma ação militar no sul do país. Aliado dos EUA, Israel atacou o território iraniano e matou o comandante da Marinha da Guarda Revolucionária do Irã, Alireza Tangsiri.

No fim da tarde, com o mercado de câmbio à vista já fechado, Trump afirmou que vai adiar até 6 de abril eventuais ataques à infraestrutura de energia do Irã, a pedido do governo iraniano. Ele voltou a repetir que as negociações com Teerã estão "indo muito bem".

As cotações do petróleo avançaram, com o contrato do Brent para junho fechando em alta de 4,61%, a US$ 101,89. A commodity tem ganhos de mais de 40% em março e alta de quase 80% no ano. Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY voltou a tocar os 100,000 pontos, enquanto a taxa das Treasuries de 2 anos avançou cerca de 2,50%, refletindo temores inflacionários.

"O real está se segurando bem com o diferencial de juros ainda elevado e a postura dura do Banco Central. E o Brasil também é exportador líquido de petróleo. Mas se houver um choque energético com um conflito mais prolongado, o dólar deve ser fortalecer bastante no mundo, pressionando a nossa taxa de câmbio", afirma Isabella Hass, da W1 Capital.

Pela manhã, o IBGE divulgou que o IPCA-15 subiu 0,44% em março, perto do teto de Projeções Broadcast (0,48%). A mediana era de 0,29%. Analistas ponderaram, contudo, que houve forte desaceleração ante fevereiro (0,84%). À tarde, em apresentação do Relatório de Política Monetária (RPM) do primeiro trimestre, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse que o mercado entendeu que a menção à "calibragem" da política monetária se refere a um ciclo de cortes da Selic.

À tarde, BC anunciou oferta de US$ 1 bilhão em dois leilões de linha (venda de dólar com compromisso de recompra), que foi totalmente absorvida pelo mercado. Como não está ligado à rolagem, o leilão representou injeção de recursos novos no mercado.

O diretor da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, afirma que cupom cambial (que reflete o juro em dólar) de curto prazo está em nível bem elevado, dada a redução do dólar casado (diferença entre o dólar spot e o futuro) - o que costuma ocorrer em momentos de maior saída de recursos no segmento spot.

Segundo o tesoureiro, antes do leilão, o dólar casado era negociado por volta de 4,80 pontos, o que significa uma taxa de cupom de 8,79% ao ano. "O cupom curto está super elevado. Há saídas líquidas no segmento spot, embora haja entrada de capital estrangeiro na bolsa", afirma Weigt. "Quando o cupom fica muito alto, o BC atual para prevenir uma disfucionalidade no mercado", disse Weigt.

Na última quarta-feira, 24, o BC, em leilão também não programado, vendeu US$ 1 bilhão em linha também não atrelada à rolagem. Na ocasião, havia pressão no dólar casado e no cupom cambial de curto prazo, sugerindo liquidez mais escassa no segmento à vista.

O diretor de investimentos e sócio-fundador da Armor Capital, Alfredo Menezes, afirma que o BC atua para controlar o cupom cambial, que sobe quando o investidor estrangeiro reverte operações de arbitragem de taxas de juros. "Isso não influencia o preço da moeda. Mas isso é normal em todo final de trimestre. É muito forte especialmente no fim do ano", afirma Menezes.