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Dólar fecha perto da estabilidade apesar de aversão global ao risco

11 de março de 2026 Antonio Perez, Estadão Conteúdo

Após trocas de sinal ao longo do dia, o dólar à vista encerrou esta quarta-feira, 11, cotado a R$ 5,1593 (+0,03%). Operadores voltaram a ressaltar que o real se comportou bem em um ambiente externo marcado por aversão ao risco e valorização da moeda americana, em meio a incertezas em torno da duração e dos impactos da guerra no Oriente Médio.

O dólar recuou nos três últimos pregões e perde 1,61% na semana, o que reduz os ganhos acumulados em março para 0,49%. A avaliação de analistas é que o real é menos afetado pelos desdobramentos do conflito pelo fato de o Brasil ser exportador líquido de petróleo e ainda ter uma taxa de juros real elevada.

Com base nos impactos inflacionários da guerra, via alta do petróleo, uma ala relevante do mercado já reduziu a previsão para o ciclo total de redução da taxa Selic neste ano. Crescem as apostas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) possa adotar uma postura mais cautelosa e optar por uma corte inicial de 0,25 ponto porcentual na semana que vem (dia 18).

O economista André Perfeito, da Garantia Capital, ressalta que o real é favorecido tanto pelo fato de o Brasil ser superavitário da balança de petróleo quanto pelo peso relevante das empresas de commodities na bolsa doméstica. "São dois vetores que operam a favor da moeda local. Isso deve atenuar os problemas mais evidentes do conflito sobre o Brasil", afirma Perfeito.

Após tombo de mais de 10% nesta quarta, as cotações voltaram a subir, com alta de mais de 4%, com o contrato do Brent para maio acima de US$ 90 o barril. As dúvidas giram em torno do tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da oferta global da commodity.

Pela manhã, a Agência Internacional de Energia (AIE) informou que países-membros concordaram com a liberação de 400 milhões de barris de reservas emergenciais, o que ajudou a conter a escalada dos preços.

O especialista em Investimentos Bruno Shahini, da Nomad, destaca que o ambiente de maior cautela em razão do conflito no Oriente Médio tem impulsionado a moeda americana no exterior. "O mercado também vem ajustando as expectativas para a política monetária americana, com redução das apostas de cortes de juros pelo Federal Reserve", diz Shahini.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em alta firme e superou a linha dos 99,000 pontos, com máxima aos 99,299 pontos. O Dollar Index já sobe mais de 1,60% em março. Entre pares do real, destaque para a leve alta do peso colombiano, também favorecido pela alta do petróleo.

A leitura do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) em fevereiro, em linha com as expectativas, não alterou a expectativa majoritária de retomada dos cortes de juros pelo Fed em julho, com chances pouco acima de 50%.

"A leitura da inflação foi benigna, sem grande impacto ainda da parte de energia. A alta do petróleo vai aparecer na leitura de março, que deve vir mais pressionada", afirma a economista Isadora Ribeiro, da AZ Quest, ressaltando que o resultado não altera a perspectiva de manutenção dos juros no encontro de política monetária do Fed na semana que vem (dia 18).

Por aqui, o Banco Central informou à tarde que o fluxo cambial foi em março (até o dia 6) está negativo em US$ 3,897 bilhões, em razão da saída líquida de US$ 6,812 bilhões pelo canal financeiro, que reúne investimentos em carteira. No acumulado do ano, o saldo total é positivo em US$ 6,599 bilhões, com entrada líquida de US$ 2,316 bilhões pelo canal financeiro e de US$ 4,283 bilhões via comércio exterior.

Pesquisa Genial/Quest sobre a corrida presidencial divulgada no início da tarde não teve impacto relevante na formação da taxa de câmbio. O levantamento trouxe, pela primeira vez, empate nas intenções de voto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em simulação de segundo turno.

"O mercado já precificou uma disputa muito acirrada nas próximas eleições presidenciais, que estão neste momento em segundo plano. O foco agora é como tanto o Fed quanto o Copom vão se comportar em suas próximas reuniões diante do possível impacto da guerra sobre inflação", afirma o economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni.