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Entrevista

Deezer transforma tecnologia de detecção por IA em nova frente de negócios e reforça combate a fraudes no streaming

Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer na América Latina, destaca que o avanço da IA na música exige novas ferramentas de transparência e proteção de royalties e aposta em tecnologia proprietária para preservar a sustentabilidade do ecossistema musical.

11 de março de 2026 por LIDE

Rodrigo Vicentini - General Manager da Deezer na América Latina _Crédito da imagem Flavia Vicentini (1)Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer na América Latina. (Foto: Divulgação)

A rápida expansão da música gerada por Inteligência Artificial está redefinindo os desafios do streaming global e abrindo novas oportunidades de negócios para plataformas digitais. A Deezer decidiu transformar sua tecnologia de detecção de conteúdos criados por IA em uma solução comercial para o mercado fonográfico, ampliando sua atuação além do streaming e posicionando-se como fornecedora de infraestrutura tecnológica para o setor.

A iniciativa ocorre após a companhia registrar números expressivos relacionados ao avanço desse tipo de conteúdo. Em 2025, mais de 13,4 milhões de faixas geradas por IA foram detectadas e sinalizadas pela plataforma. O volume de uploads também chama atenção: cerca de 60 mil músicas criadas por máquina são enviadas diariamente, o equivalente a aproximadamente 39% do total de conteúdos recebidos pela Deezer todos os dias.

Apesar do alto volume de envio, essas músicas ainda representam uma fatia relativamente pequena do consumo total. Em média, as faixas geradas por IA respondem por até 3% dos streams da plataforma. No entanto, o índice de fraude associado a esse tipo de conteúdo é significativamente maior. De acordo com a empresa, até 85% dos streams dessas músicas foram classificados como fraudulentos em determinados meses de 2025, enquanto no restante do catálogo o índice foi de cerca de 8% no mesmo período.

Oportunidade

Como resposta, a Deezer desenvolveu uma ferramenta proprietária capaz de identificar conteúdos produzidos por inteligência artificial. A plataforma também passou a marcar e excluir claramente essas faixas das recomendações algorítmicas, uma estratégia voltada a impedir que sistemas automatizados sejam utilizados para gerar royalties indevidos a partir de músicas criadas em massa.
Agora, a companhia dá um passo além ao disponibilizar essa tecnologia para outros agentes da indústria musical. A ferramenta passa a ser licenciada para organizações e entidades do setor que buscam maior controle sobre a distribuição e a monetização de conteúdos no ambiente digital.

Mercado

Na América Latina, a estratégia também reflete uma preocupação crescente com a sustentabilidade do ecossistema musical em um cenário de transformação tecnológica acelerada. Para a companhia, o avanço da inteligência artificial deve caminhar junto com mecanismos capazes de preservar a remuneração justa de criadores.

"Com esta iniciativa, damos mais um passo na nossa missão de equilibrar crescimento tecnológico e sustentabilidade do ecossistema musical. Estamos comprometidos em trazer ao Brasil tecnologia que não apenas detecta conteúdos gerados por IA, mas que também protege os direitos de quem cria e incentiva a criatividade humana como motor principal da plataforma”, destaca Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer na América Latina.

A decisão de comercializar a tecnologia também reflete uma mudança estratégica mais ampla no setor de música digital. À medida que plataformas passam a lidar com volumes crescentes de conteúdos gerados por máquinas, ferramentas de monitoramento e autenticação tornam-se cada vez mais essenciais para garantir transparência, governança de dados e a distribuição justa de receitas em toda a cadeia da música.

Leia a entrevista completa abaixo.

Dados divulgados recentemente mostram altos índices de fraude em músicas geradas por IA. Como esse tipo de prática impacta economicamente artistas, compositores e o próprio ecossistema musical?

O impacto potencial é relevante. Um estudo da CISAC aponta que até 25% da receita dos criadores pode estar em risco até 2028, o que representa cerca de €4 bilhões. Hoje, na Deezer, as músicas totalmente geradas por IA representam entre 1% e 3% dos streams, mas já identificamos um padrão preocupante: até 85% desses streams apresentam sinais de fraude. Na prática, isso significa tentar capturar royalties de forma artificial. Cada stream fraudulento é um recurso que deixa de chegar a um artista ou compositor real. Por isso investimos em tecnologia para detectar essas práticas e excluir esses streams do cálculo de royalties, protegendo a economia criativa.

Hoje, a música criada por IA já é quase indistinguível da produção humana. Onde a Deezer estabelece o limite entre inovação tecnológica e a proteção da criatividade humana?

A inteligência artificial abre possibilidades interessantes para a música — desde ferramentas de produção até novas formas de experimentação criativa. O ponto central, para nós, é garantir que essa evolução tecnológica aconteça de forma equilibrada para todo o ecossistema. A música sempre evoluiu com a tecnologia. A diferença agora é a velocidade dessa transformação. Na Deezer, acreditamos que inovação e proteção da criação humana precisam caminhar juntas. Por isso defendemos mais transparência sobre conteúdos gerados por IA e também mais clareza sobre como essas tecnologias são treinadas. Nosso foco é garantir que a tecnologia continue ampliando o alcance da música e aproximando artistas e fãs, sem comprometer a sustentabilidade da indústria.

A decisão de comercializar a tecnologia de detecção por IA marca uma nova frente de negócios para a Deezer. Como essa iniciativa pode transformar a relação da indústria com a Inteligência Artificial?

Acreditamos que a transparência será um dos pilares da próxima fase da indústria musical. Ao desenvolver nossa tecnologia de detecção, percebemos que ela poderia ajudar todo o setor — não apenas plataformas de streaming, mas também gravadoras, distribuidores e titulares de direitos. A IA não precisa ser um problema para a indústria. O problema é a falta de transparência. Ao disponibilizar essa tecnologia, queremos reduzir incentivos à fraude e criar um ambiente mais sustentável para artistas, plataformas e fãs.

Na sua visão, qual deve ser o papel das plataformas de streaming na regulação ética do uso de IA, considerando que ainda há lacunas regulatórias em muitos mercados?

A regulação ainda está evoluindo em muitos mercados, mas as plataformas podem e devem assumir responsabilidade desde já. Na Deezer adotamos uma abordagem clara: detectar, identificar e sinalizar conteúdos gerados por IA, além de remover qualquer incentivo econômico ligado a fraudes. Também acreditamos que a indústria precisa discutir mecanismos adicionais, como limites de upload e maior responsabilidade das plataformas de distribuição. A tecnologia evolui rápido, mas os princípios precisam permanecer os mesmos: transparência, responsabilidade e respeito aos criadores. O Brasil é um mercado estratégico para o streaming musical.

Como iniciativas como essa fortalecem a confiança de artistas, gravadoras e usuários brasileiros na plataforma?

O Brasil é um dos mercados mais importantes para a música no mundo e um território central para a Deezer. Quando discutimos inteligência artificial na música, estamos falando também sobre o futuro da indústria. O papel das plataformas é garantir que essa evolução aconteça de forma saudável para todo o ecossistema. O streaming só funciona quando artistas, fãs e plataformas estão alinhados em um mesmo sistema que valoriza a música. Ao investir em tecnologia para identificar conteúdos gerados por IA e combater práticas fraudulentas, estamos ajudando a manter o ambiente do streaming equilibrado, garantindo que os incentivos continuem direcionados para quem cria e para quem realmente consome música.