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Estratégia de expansão

Vulcabras, dona da Olympikus, prepara aquisições e avança para o lifestyle

Companhia reforça caixa, mira novas marcas esportivas e aposta na verticalização para disputar espaço além do tênis funcional.

04 de março de 2026 por LIDE

pedro-bartelle-ceo-da-vulcabrasPedro Bartelle, CEO da Vulcabras, dona da Olympikus. (Foto: Divulgação)

Depois de acumular 22 trimestres consecutivos de crescimento de vendas, a Vulcabras, dona da Olympikus e fabricante licenciada da Under Armour e da Mizuno no Brasil, prepara 2026 como um ano que deve ir além do crescimento orgânico.

Segundo o InvestNews, a companhia afirma estar pronta para comprar ou licenciar novas marcas e, ao mesmo tempo, avançar do esporte funcional para o território em que as gigantes globais concentram receita: o lifestyle. O movimento mira o segmento que combina performance e moda, com produtos que transitam da corrida para o uso urbano.

Empresas como Nike, Adidas e Puma consolidaram essa estratégia ao transformar performance em linguagem cultural. A Adidas, por exemplo, tem quase metade da receita proveniente de lifestyle, com modelos como Samba, Gazelle e SL72. A Nike mantém linhas como Air Force 1 e Jordan 1 entre as mais conhecidas, enquanto a Puma já firmou parceria com a Fenty.

Ainda mais forte no tênis funcional do que no território da moda, a Vulcabras criou uma área dedicada ao avanço nesse segmento em sua sede, no Rio Grande do Sul.

Após um fim de 2025 que sinalizou que o modelo de negócio suporta ciclos de investimento com rentabilidade, a empresa pretende usar sua estrutura industrial — fábrica, velocidade e leitura de demanda — para avançar no mercado, inclusive por meio de aquisições. A última ocorreu em 2021, quando assumiu a licença da japonesa Mizuno, antes pertencente à Alpargatas.

Oportunidades no radar

A companhia afirma que “cabe mais marca” em seu portfólio.

“Qualquer marca esportiva que tiver dentro da Vulcabras, aproveitando os recursos da Vulcabras, vai performar melhor no Brasil”, afirmou o CEO Pedro Bartelle em entrevista ao InvestNews.

Segundo o executivo, há mapeamento de oportunidades e a expectativa de um ambiente mais favorável, especialmente com a esperada queda da taxa básica de juros, para retomar negociações.

O CFO Wagner Dantas afirma que a empresa tem reforçado a estrutura financeira para aproveitar potenciais negócios. Em 2025, acelerou o pagamento de dividendos e distribuiu R$ 1,54 bilhão aos acionistas.

Agora, a meta é preservar flexibilidade no caixa. “Preferimos trabalhar com um balanço mais conservador, até para reagir se alguma oportunidade inorgânica aparecer”, afirma.

A geração de caixa deve ser mais direcionada à redução do endividamento — abaixo de uma vez a relação dívida líquida/Ebitda —, em vez de manter uma distribuição agressiva de dividendos.

O ano de 2025 exigiu mais investimentos do que o previsto. As vendas totais cresceram 16,7%, para R$ 4,2 bilhões, mas a companhia reforçou contratações e estrutura para sustentar o ritmo, o que pressionou margens em alguns trimestres.

Bartelle classifica o período como uma decisão estratégica. A empresa acelerou contratações para acompanhar a demanda e viu a rentabilidade reagir no fim do ano. No quarto trimestre, a margem voltou a 21,9%, alta de 0,7 ponto percentual.

Vantagem industrial

A verticalização da cadeia produtiva é apontada por analistas do UBS como vantagem competitiva, mesmo diante do domínio do Sudeste Asiático na indústria de calçados, onde os custos de mão de obra são mais baixos.

Segundo o banco, o ciclo do desenho ao lançamento seria de cerca de quatro meses, ante aproximadamente 12 meses em pares internacionais, além de um intervalo entre pedido e produção medido em semanas. A agilidade reduz risco de estoque e permite ajustes de coleção ao longo do processo.

Nos últimos cinco anos, a companhia investiu mais de R$ 1 bilhão em expansão de fábricas, modernização de maquinário e reforço de pesquisa e desenvolvimento, incluindo software, sistemas, prototipagem e testes.

“Como temos um negócio verticalizado, produzimos com rapidez. Isso não gera sobras nem estoques, porque não queremos participar de grandes liquidações que destroem muito margem”, afirma Bartelle.

A empresa também amplia a venda direta ao consumidor. Em 2025, o e-commerce cresceu 25%, para R$ 543,1 milhões, e passou a representar 15,3% da receita líquida. O grupo caminha para cerca de 20 lojas próprias, principalmente das marcas Under Armour e Mizuno.

Para analistas do UBS, a expansão de canais próprios pode ampliar a exposição de vestuário e acessórios, hoje menos visíveis em um mercado dominado por sapatarias.

Novos vetores de demanda

A companhia observa mudanças no comportamento do consumidor. Segundo Bartelle, além de corredores, cresce o público que combina musculação, funcional e corrida e busca modelos híbridos.

O executivo cita ainda o impacto cultural das chamadas canetas emagrecedoras, como Ozempic e Mounjaro, como um vetor adicional de estímulo à prática de exercícios voltados à preservação e construção de massa magra. A empresa estuda produtos para esse uso misto.

A aposta na Olympikus

A Olympikus, única marca própria do grupo, é apontada como principal tese desde a reestruturação iniciada nos anos 2010. A marca foi reposicionada a partir de 2019 com a criação da linha Corre, desenvolvida com participação de corredores amadores, atletas profissionais, pesquisadores acadêmicos e comunidade de saúde esportiva.

A linha ampliou participação de mercado e reforçou a percepção de qualidade. Foi o calçado utilizado pelos seis primeiros colocados da Maratona Internacional de São Paulo, em abril de 2025.

Em 2026, a linha ganhou o modelo Pace, com 140 gramas e preço de R$ 2 mil, o mais alto já lançado pela companhia.

Bartelle compara o produto ao automobilismo: “esse tênis é o pneu de classificação da Fórmula 1”. Segundo ele, trata-se de um item de alta performance voltado a corredores profissionais.

O executivo afirma que um dos concorrentes é o Adidas Adizero Adios Pro Evo 1, com 138 gramas e preço de R$ 4 mil.

“O Brasil ainda consome pouco tênis per capita. E, quando o brasileiro pode comprar, a primeira marca de custo-benefício somos nós”, argumenta Bartelle.

Após vender a Azaleia em 2020 e concentrar a estratégia no esporte, a Vulcabras busca agora ampliar presença no guarda-roupa do consumidor brasileiro, combinando performance, estrutura industrial e avanço no segmento de lifestyle, segundo o InvestNews.