Filie-se
Tecnologia

IA chinesa de código aberto desafia rivais dos EUA e abala fabricantes de chips

Com 2,8 trilhões de parâmetros, Kimi K3 pressiona modelos de negócio de OpenAI e Anthropic e reacende no mercado o temor de um novo “momento DeepSeek”.

17 de julho de 2026 - Atualizado em 17 de julho de 2026 às 17h14 por LIDE

moonshot-aiIA chinesa pressiona fabricantes de chips americanas com seu modelo de negócio. (Foto: Reprodução)

A chinesa Moonshot AI lançou nesta sexta-feira (17) o Kimi K3, modelo de inteligência artificial que promete combinar código aberto, menor custo e desempenho competitivo em programação e na execução autônoma de tarefas. A novidade pressionou as ações de fabricantes de chips em Wall Street e reacendeu o receio de um novo “momento DeepSeek”, ao colocar novamente em dúvida o tamanho e a duração da vantagem tecnológica dos Estados Unidos.

De acordo com o InvestNews, a Moonshot pretende abrir integralmente o código-fonte do Kimi K3 até o fim deste mês, permitindo que desenvolvedores baixem e adaptem o sistema livremente. Com 2,8 trilhões de parâmetros, o modelo é apresentado pela startup de Pequim como o maior já lançado em código aberto.

Os parâmetros funcionam como unidades responsáveis por armazenar e processar os padrões aprendidos pela inteligência artificial e são utilizados como uma medida aproximada da capacidade de um modelo. Quanto maior esse volume, maior tende a ser a quantidade de informações que o sistema consegue absorver.

Desempenho contra os modelos americanos

Nos resultados divulgados pela própria Moonshot, o Kimi K3 superou o Opus 4.8, da Anthropic, e o GPT-5.5, da OpenAI, na maioria dos testes de programação e de agentes autônomos. O sistema chinês, no entanto, permanece atrás dos modelos fechados mais avançados dos Estados Unidos, o Fable 5 e o GPT-5.6 Sol.

Analistas do Jefferies classificaram o lançamento como um “avanço inesperado” e avaliam que a chegada do novo modelo deve acelerar a inovação no setor. O movimento acompanha o avanço de outras empresas chinesas, como a também pequinesa Z.AI, cujo GLM-5.2 já havia superado sistemas americanos em alguns testes, principalmente de programação.

Os lançamentos reforçam a percepção de que os laboratórios chineses estão reduzindo a distância tecnológica em relação aos concorrentes dos Estados Unidos em um ritmo mais acelerado que o previsto.

Pressão sobre OpenAI e Anthropic

O impacto para as empresas americanas vai além da disputa técnica. Laboratórios chineses costumam disponibilizar o código de seus modelos e cobrar menos pelo processamento, estratégia que pressiona o modelo de negócios de companhias como OpenAI e Anthropic, baseado em sistemas fechados e mais caros.

Se um modelo gratuito, adaptável e de código aberto apresentar desempenho semelhante em tarefas cotidianas, como programação, diminui a diferenciação utilizada pelas empresas americanas para sustentar seus preços.

A Anthropic já reconhece o avanço dos concorrentes. Tarun Chhabra, chefe de política de segurança nacional da companhia, afirmou em uma conferência nesta semana que a vantagem americana sobre os laboratórios chineses estaria atualmente entre “seis e nove meses”.

A empresa também acusou publicamente laboratórios chineses, entre eles Moonshot e Z.AI, de utilizarem modelos americanos para treinar seus próprios sistemas, levantando a discussão sobre quanto desse avanço resulta da reprodução de tecnologias existentes.

Moonshot se prepara para abrir capital

A Moonshot vem ampliando sua capacidade financeira para disputar espaço no mercado global de inteligência artificial. A startup, que tem a gestora de venture capital HSG e a Alibaba entre seus investidores, negocia uma rodada de investimentos que pode avaliá-la em US$ 31,5 bilhões.

A empresa também iniciou os preparativos para realizar uma oferta pública inicial de ações em Hong Kong. Seu crescimento ocorre em meio ao esforço de Pequim para alcançar maior autossuficiência tecnológica na disputa com os Estados Unidos.

O lançamento do Kimi K3 teve efeito imediato no mercado financeiro, com forte queda das ações de fabricantes de chips em Nova York. Os investidores consideram que modelos mais eficientes podem reduzir a necessidade de capacidade computacional e, consequentemente, a demanda por semicondutores.

Para OpenAI e Anthropic, porém, a pressão mais duradoura não se limita à reação do pregão. A chegada de modelos chineses abertos e mais baratos eleva o custo da disputa e desafia a capacidade das empresas americanas de manter sua liderança tecnológica e comercial.