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Adaptação

Empresas têm dificuldade para traduzir risco climático em impacto quantificável

Entre outros motivos, isso ocorre porque, diferentemente dos riscos corporativos convencionais, os climáticos são sistêmicos em vez de isolados, afetando regiões inteiras, setores ou cadeias de suprimentos.

28 de maio de 2026 por AGÊNCIA EY

Ricardo Assumpção-DivulgaçãoRicardo Assumpção, líder de sustentabilidade e CSO da EY para a América Latina. (Foto: Divulgação)

O Fórum Econômico Mundial tem apontado que a incapacidade de mitigar as mudanças climáticas e a adaptação insuficiente às suas consequências estão entre os maiores riscos globais nos próximos anos. No entanto, apesar da crescente relevância dos riscos climáticos, as empresas ainda enfrentam desafios significativos para abordá-los, de acordo com o estudo “Do risco à resiliência: gerindo riscos climáticos”, produzido pela EY. Entre os motivos para isso é que os riscos climáticos são tratados apenas no âmbito dos departamentos de sustentabilidade, com a finalidade de responder às obrigações de reporte – cada vez mais presentes no dia a dia das organizações.

“Essa dinâmica ignora o fato de que os riscos climáticos vão muito além das exigências regulatórias, afetando praticamente todas as áreas do negócio, já que estão ligados intimamente a outros tipos de riscos, como operacionais, financeiros e reputacionais”, diz Ricardo Assumpção, líder de sustentabilidade e CSO (Chief Sustainability Officer) da EY para a América Latina. “Os riscos climáticos podem inclusive ampliar outros tipos de riscos já existentes. Exemplo frequente está nos efeitos causados por eventos climáticos como inundações que interrompem cadeias de suprimentos, intensificando por consequência os riscos operacionais”, completa.

O estudo da EY destaca que há diferenças conceituais e estruturais entre riscos relacionados ao clima e riscos convencionais de negócios, ainda que as empresas não consigam muitas vezes fazer essa diferenciação. O não entendimento dessa lógica traz dificuldade para as organizações traduzirem as ameaças climáticas em impactos quantificáveis nos seus negócios. É justamente esse o desafio dos reportes de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, já que exigem das empresas essa materialidade com evidências suficientes que possam ser até mesmo auditadas. No Brasil, a Resolução CVM 193, que recepcionou as normas IFRS S1 e S2, obriga que as companhias de capital aberto divulguem esse relatório. Na prática, o primeiro reporte será no próximo ano com as informações referentes ao exercício de 2026.

Para que os riscos climáticos possam ser gerenciados em conjunto com outros tipos de riscos corporativos, por meio da sua integração em framework ERM, é preciso compreender não apenas essas diferenças como também semelhanças entre eles, alerta o estudo da EY. Ambos os tipos de riscos dizem respeito a eventos que afetam negativamente o desempenho financeiro, operacional, de conformidade ou estratégico de uma empresa e, em última análise, ameaçam sua estabilidade, objetivos ou reputação. No entanto, os riscos convencionais de negócios são mais reservados à realidade da empresa sujeita a essas ameaças, além de serem quantificáveis e avaliados em horizontes de tempo de curto a médio prazo (um a cinco anos), podendo ser analisados com base em eventos históricos e modelos probabilísticos.

Já os riscos climáticos são frequentemente sistêmicos em vez de isolados, afetando regiões inteiras, setores ou cadeias de suprimentos, exigindo modelagem baseada em cenários para levar em conta dinâmicas climáticas complexas e em evolução. Essas ameaças são também tipicamente avaliadas em horizontes de tempo mais longos (por exemplo, de 2050 para frente). Essas diferenças complicam a comparação direta entre os dois tipos de riscos e a integração nos sistemas de gestão de riscos.

Probabilidade e impacto versus perigo, exposição e vulnerabilidade

Essas diferenças conceituais também influenciam como cada tipo de risco é abordado. Ambos os tipos de riscos consideram consequências financeiras e operacionais. No entanto, a gestão de riscos corporativos convencionais normalmente se concentra na estimativa da probabilidade e do impacto de eventos específicos. Por outro lado, a gestão de riscos climáticos requer uma compreensão do perigo oferecido pelos eventos climáticos analisados, da exposição de ativos ou pessoas a esse perigo e da vulnerabilidade aos eventos dessa ordem.

Embora a abordagem geral para identificar medidas de mitigação seja semelhante tanto para riscos corporativos convencionais quanto para riscos climáticos, há algumas diferenças. “Na gestão de riscos que não contemplam os do clima, os esforços de mitigação visam principalmente reduzir a probabilidade e o impacto dos riscos. Isso é alcançado por meio de controles internos, mecanismos de conformidade e salvaguardas operacionais projetadas para prevenir interrupções antes que elas ocorram”, diz Assumpção. Nesse contexto, os riscos podem geralmente ser controlados e gerenciados por meio de intervenções procedimentais ou tecnológicas.

Já a mitigação dos riscos climáticos opera sob lógica diferente. Os perigos relacionados ao clima tendem a ser sistêmicos, externos e não podem ser prevenidos. Consequentemente, as estratégias de mitigação focam na redução da exposição e da vulnerabilidade. “Isso envolve identificar ativos físicos, operações ou comunidades que estão em risco e implementar medidas para aumentar sua resiliência, como realocação de instalações, reforço de infraestrutura e adaptação de cadeias de suprimentos para suportar interrupções climáticas”, observa Assumpção.

Impacto das mudanças climáticas

Mais da metade dos investidores (55%) entrevistados pela edição 2024 do Institutional Investor Survey, produzido pela EY, dizem que o impacto das mudanças climáticas vai afetar muito suas estratégias de investimento no curto prazo. Os investidores da Europa e da América do Norte estão mais propensos do que seus pares em outras partes do mundo a enxergar as mudanças climáticas como um driver para suas estratégias de investimento. O levantamento entrevistou 350 investidores tomadores de decisão de instituições em todo o mundo, incluindo empresas de gestão de ativos, de patrimônio, seguradoras e fundos de pensão.

A maioria dos investidores (88%) afirma que aumentou, ao analisar as empresas, um pouco ou substancialmente o uso de informações ESG. Esse movimento demonstra a ascensão dos reportes de sustentabilidade, cuja função principal é municiar o mercado com informações mais confiáveis para guiar suas decisões de investimento.