Taxas curtas de juros têm forte alta na sessão, de olho em inflação acima do previsto
O trecho mais curto da curva a termo exibiu forte alta no pregão desta sexta-feira, pressionado pela surpresa para cima com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que superou o teto das estimativas do Projeções Broadcast ao avançar 0,88% em março. O dado trouxe os primeiros impactos do choque da guerra nos preços ao consumidor e retirou da mesa a possibilidade de corte de 0,5 ponto da Selic em abril. Os juros longos, por sua vez, caminharam em sentido contrário, com queda que, segundo agentes, parece refletir ingresso de recursos estrangeiros no país para a renda fixa, com alguma volta do apetite ao risco lá fora.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saltou de 13,923% no ajuste de quinta-feira a 14,06%. O DI para janeiro de 2029 subiu a 13,38%, vindo de 13,301% no ajuste. Na contramão, o DI para janeiro de 2031 cedeu de 13,473% para 13,42%.
Primeiro dado doméstico com efeito relevante na curva futura desde a eclosão da guerra, o IPCA do mês passado superou o teto das projeções do mercado, ao avançar 0,88%. A maior influência de alta sobre o indicador veio de transportes e alimentação e bebidas, que juntos, responderam por 76% da inflação mensal. Individualmente, o item que mais pressionou o IPCA foi a gasolina, que subiu 4,59% nas bombas, mesmo sem a Petrobras ter reajustado o combustível.
Economistas também apontaram preocupação com aspectos mais qualitativos do indicador oficial de inflação. "As medidas de núcleo foram relativamente comportadas, mas permanecem em níveis elevados, com uma futura transmissão possivelmente complicando as perspectivas para o afrouxamento monetário", disse em relatório Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays.
Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, destaca que o índice de difusão, que mede o porcentual de itens da cesta de consumo do IPCA com aumento mensal, subiu a 67% em março, de 61% em fevereiro. "As surpresas para cima foram mais disseminadas, os serviços não arrefeceram, a gasolina veio com alta importante. Esse IPCA, qualitativa e quantitativamente, corrobora um corte de 0,25 ponto da Selic em abril", avaliou.
A probabilidade de uma redução maior no juro, de 0,5 ponto, que voltou a ser cogitada esta semana e chegou a alcançar 40% na quarta-feira, nesta sexta voltou praticamente a zero. Nesta tarde, observa Costa, a curva de juros futuros precificava 25 pontos-base de corte na reunião deste mês do Comitê de Política Monetária (Copom). A taxa final apontada para 2026 estava em 14%, ou seja, embutindo um orçamento total de cortes no ano de apenas 0,75 ponto.
No front externo, os investidores aguardam o desfecho das conversas previstas para o sábado entre negociadores dos EUA, liderados pelo vice-presidente americano, JD Vance, e uma delegação iraniana, em meio a um frágil cessar-fogo. Nesta sexta, antes de decolar para Islamabad, a capital paquistanesa, Vance disse esperar que as conversas para encerrar a guerra com o Irã sejam positivas, mas advertiu o país persa a "não brincar" com Washington durante o processo.
Os vértices mais longos, por sua vez, podem ter sido aliviados na sessão desta sexta por fluxo de capital estrangeiro para a renda fixa, avaliam agentes. "Pode ter tido fluxo sim. Hoje estamos um pouco mais descolados mesmo dos ativos globais", afirmou o head de renda fixa de uma grande Asset ao Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
O cômputo semanal também foi de achatamento da curva, com a devolução dos prêmios dos DIs mais curtos observada até quinta-feira apagada pelo resultado mais salgado do IPCA divulgado nesta sexta. Em relação ao fechamento da última sexta-feira, o DI para janeiro de 2027 avançou cerca de 4 pontos-base, enquanto as taxas para janeiro de 2029 e de 2031 recuaram cerca de 30 pontos-base.