Dólar dispara e atinge R$ 5,24 com aversão ao risco por guerra
O aumento da aversão ao risco no exterior com o acirramento da guerra no Oriente Médio desencadeou uma busca global pela moeda americana nesta quinta-feira, 12. No mercado doméstico, o dólar à vista subiu 1,61%, a R$ 5,2423 - acima de R$ 5,20 no fechamento pela primeira vez nesta semana. O real e seus principais pares, em especial o peso chileno, amargaram as piores perdas entre as divisas emergentes.
"A sessão foi marcada por uma forte alta do petróleo, o que levou a um risk-off nos mercados globais. Declarações do presidente Trump e do novo líder do Irã sugerem que o conflito pode se estender, provocando choques nos preços de energia", afirma o economista-chefe da corretora Monte Bravo, Luciano Costa.
Pela manhã, Trump disse que impedir o "império maligno" do Irã de ter armas nucleares é mais importante que as mudanças no preço do petróleo. Já o aiatolá Motjaba Khamenei ameaçou a abrir novas frentes da guerra e manter o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde é escoado cerca de 20% da oferta mundial da commodity.
Principal termômetro das apostas sobre o desenrolar do conflito, os preços do petróleo dispararam. O contrato do tipo Brent para maio fechou em alta de 9,21%, a US$ 100,46 o barril. Já o contrato do WTI para abril avançou 9,74%, a US$ 95,73 o barril. A commodity já sobe cerca de 40% em março e quase 70% no ano.
A formação da taxa de câmbio esteve estreitamente ligada ao vaivém do petróleo. Na máxima, já perto do fechamento, o dólar atingiu R$ 5,2493. Com o repique desta quinta, a divisa praticamente zerou a baixa na semana (-0,03%). No mês, os ganhos são de 2,11%, após queda de 2,16% em fevereiro.
Costa, da Monte Bravo, lembra que o real tem se comportado bem mesmo em episódios mais agudos de aversão ao risco. Além da taxa Selic ainda bastante elevada, o que torna muito custoso o carregamento de posições em dólar, a moeda brasileira é favorecida pelo fato de o país ser um grande exportador de petróleo.
"A leitura era que a alta do petróleo protegia de certa forma o real, porque levava a uma melhora da balança comercial e do fluxo cambial. Isso pode mudar um pouco com a taxação das exportações de petróleo para compensar as medidas de alívio no preço do diesel", afirma Costa, acrescentando que o imposto leva ao incentivo de aumento da oferta no mercado interno.
O governo Lula anunciou no início da tarde que vai zerar as alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel, o que representa queda de R$ 0,32 por litro na refinaria. Haverá ainda subvenção para produtores, somando outros R$ 0,32. Ou seja, a baixa no preço será de R$ 0,64 por litro. Para compensar a perda de receita, haverá imposto de 12% sobre as exportações de petróleo.
Segundo analistas ouvidos pela Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, as medidas são praticamente neutras do ponto de vista fiscal e têm impacto bem limitado na inflação, que é mais suscetível aos preços da gasolina. Pela manhã, o IBGE informou que o IPCA acelerou de 0,33% em janeiro para 0,70% em fevereiro, acima da mediana de Projeções Broadcast (0,63%). A inflação acumulada em 12 meses desacelerou de 4,44% para 3,81%.
A inflação corrente e a escalada do petróleo não devem impedir o Comitê de Política Monetária (Copom) de iniciar um ciclo de redução de juros em seu encontro na próxima semana (dia 8), mas já há quem veja um corte inicial mais modesto, de 0,25 ponto porcentual.
O economista-chefe da Monte Bravo trabalha com redução dos juros em 0,50 ponto porcentual, mas, dado o choque nos preços de energia, vê taxa Selic em 12,50% no fim do ciclo, em vez de 12,25% previstos anteriormente. "Do ponto de vista do câmbio, não muda quase nada. A taxa vai continuar em nível bem elevado, o que ajuda a dar sustentação ao real", afirma Costa.