Acordo Mercosul-UE: Marcos Troyjo lista 10 desafios para o Brasil aproveitar o tratado
Para o co-chairman do LIDE e ex-presidente do Banco dos Brics, a assinatura do acordo é um passo vital para diversificar o comércio, mas o país precisa de urgentes reformas internas — do ajuste fiscal ao aumento da produtividade — para colher benefícios reais.
Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos Brics) e atual co-chairman do LIDE. (Foto: Divulgação)
Prestes a ser formalizado, o aguardado acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia representa uma oportunidade histórica para o Brasil reduzir sua dependência do mercado asiático. No entanto, a assinatura do tratado, por si só, não será uma “bala de prata”. Essa é a avaliação do embaixador Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos Brics) e atual co-chairman do LIDE.
Em entrevista ao NeoFeed, Troyjo alerta que o Brasil corre o risco de subaproveitar o acesso à segunda maior economia do mundo se não fizer o seu dever de casa. Embora o acordo sirva como um selo de qualidade para atrair investimentos, o diplomata elenca dez pontos críticos na economia doméstica que o governo precisa endereçar para que o país transforme o tratado em crescimento efetivo.
Segundo Troyjo, a atual dependência da China — destino de 33% das exportações brasileiras — expõe o país a riscos geopolíticos. O acordo com a Europa, que possui um PIB per capita três vezes maior que o chinês, seria a chave para essa diversificação. Contudo, ele aponta falta de disposição do atual governo para realizar as reformas estruturantes necessárias.
Confira os 10 pontos fundamentais citados por Troyjo para o Brasil se beneficiar do acordo:
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Ajuste Fiscal Rigoroso: O país precisa controlar os gastos públicos. A falta de atenção à questão fiscal compromete a competitividade das empresas nacionais frente aos europeus.
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Redução da Carga Tributária: Com impostos que chegam a 33% do PIB, o Brasil opera com um Estado muito mais caro que o de emergentes como México ou Índia (cuja média é de 18% a 22%), o que onera a produção.
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Meritocracia nas Estatais: É necessário abandonar o uso político de cargos em conselhos de empresas mistas e adotar critérios técnicos e meritocráticos nas indicações.
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Reversão da Queda de Produtividade: Para competir com a indústria e o agro europeus, o Brasil precisa se modernizar internamente e melhorar sua logística.
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Eficiência das Estatais: O diplomata cita a piora nos indicadores de empresas públicas, como os Correios, e cobra ações concretas para estancar a ineficiência.
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Fomento à P&D: As empresas brasileiras investem pouco em inovação porque o governo, como grande tomador de crédito, encarece o dinheiro disponível no mercado.
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Fortalecimento do Mercado de Capitais: A saída de empresas da Bolsa (B3) reflete a desconfiança no ambiente de negócios, limitando o financiamento privado.
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Controle da Dívida Pública: A relação Dívida/PIB está em deterioração, aproximando-se de patamares preocupantes (90% no critério do FMI), o que afasta investidores.
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Aumento da Poupança Interna: A baixa taxa de poupança doméstica limita a capacidade de investimento do país.
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Promoção Comercial Agressiva: É preciso investir mais na imagem internacional do Brasil e em órgãos de promoção de exportações, como a Apex, para abrir mercados para o produto nacional.
Para o co-chairman do LIDE, sem avançar nessas pautas, o impacto do acordo será limitado e o Brasil continuará excessivamente vulnerável às oscilações de um único parceiro comercial.