Sylvia Coutinho defende mais mulheres nos centros de decisão
Após mais de duas décadas em cargos de comando no sistema financeiro internacional, Sylvia Coutinho quer impulsionar uma nova geração de lideranças femininas.
À frente do LIDE Mulher, Sylvia Coutinho quer impulsionar uma nova geração de lideranças femininas. (Foto: Divulgação)
Em um mercado historicamente marcado pela predominância masculina, Sylvia Brasil Coutinho construiu, ao longo de mais de 25 anos de carreira, uma trajetória de liderança em algumas das maiores instituições financeiras do mundo. Ex-CEO do UBS no Brasil e líder regional para a América Latina entre 2013 e 2024, a executiva também comandou a área de Wealth Management da instituição na região, liderando equipes nos Estados Unidos, Europa e América Latina, com cerca de US$ 160 bilhões em ativos sob gestão.
Durante sua passagem pelo banco, esteve à frente da joint venture entre UBS e Banco do Brasil e conduziu aquisições estratégicas em um dos períodos de expansão da operação na região. Hoje, no comando do LIDE Mulher, Sylvia atua no fortalecimento do debate sobre liderança feminina, diversidade, transformação tecnológica e os desafios da presença das mulheres em setores estratégicos da economia.
Nesta entrevista, a executiva fala sobre gestão em ambientes complexos, inteligência artificial, formação de lideranças e os aprendizados acumulados ao longo de sua trajetória no mercado financeiro global, além de analisar o papel estratégico do LIDE Mulher na construção de um ambiente de negócios mais inclusivo, inovador e competitivo.
Revista LIDE: Como você enxerga a evolução da presença feminina em posições de alta liderança no Brasil e no mundo?
Sylvia Coutinho: A evolução é inequívoca, mas ainda incompleta. Houve avanço relevante nos pipelines de talento e na presença em posições executivas, porém o topo — conselhos e cargos de C-level — ainda apresenta sub-representação feminina. O principal gargalo permanece na transição para posições de poder decisório efetivo.
Quando comparo o Brasil aos demais países da OCDE, estamos abaixo na representação feminina em conselhos executivos e de administração, especialmente em áreas de negócios e em segmentos como o mercado financeiro. Tenho orgulho de dizer que, nos 11 anos em que fui presidente do UBS para o Brasil e América Latina, nosso comitê executivo tinha praticamente paridade entre homens e mulheres. Não porque isso tenha sido imposto, mas porque sempre fui muito focada em meritocracia e, obviamente, não havia barreiras. Acabamos chegando a uma paridade natural.
Revista LIDE: Quais características você considera essenciais para liderar em um ambiente cada vez mais complexo e globalizado?
Sylvia Coutinho: Cinco características são críticas: capacidade analítica com visão sistêmica, resiliência sob pressão, adaptabilidade, saber escutar e, sobretudo hoje em dia, fluência em transformação tecnológica e inteligência artificial.
O ambiente atual exige leitura simultânea de variáveis macroeconômicas, geopolíticas, tecnológicas e regulatórias. Além disso, decisões precisam ser tomadas rapidamente e muitas vezes com informações incompletas, o que exige julgamento calibrado, visão e experiência.
Revista LIDE: De que forma a diversidade, especialmente de gênero, impacta a tomada de decisão e os resultados dentro das organizações?
Sylvia Coutinho: Diversidade melhora a qualidade do processo decisório ao reduzir vieses cognitivos e ampliar o espectro de análise. Não é um argumento normativo, mas pragmático: equipes diversas questionam premissas, evitam pensamento de grupo e tendem a produzir decisões mais robustas, especialmente em contextos de risco elevado. O impacto aparece em melhor alocação de capital e maior resiliência organizacional.
Revista LIDE: Ao longo da sua trajetória, quais foram os principais aprendizados que moldaram sua visão de liderança no setor financeiro?
Sylvia Coutinho: Ao longo da minha trajetória, foram muitos aprendizados diferentes, até porque tive a oportunidade de trabalhar em três grandes instituições financeiras líderes globais, em diferentes linhas de negócio e em mais de 15 países. Passei 14 anos morando fora do Brasil e, mesmo quando atuei no país, tive responsabilidades regionais na América Latina, Estados Unidos e Europa. Mas, sintetizando, eu diria que cinco vetores foram estruturantes: foco no cliente e nas equipes, execução pragmática e disciplinada, adaptabilidade, visão de futuro e gestão de riscos.
No Citibank e no HSBC, a escala operacional e a variedade de experiências em diferentes áreas de negócios, países e culturas me ensinaram estratégia, planejamento, gestão de pessoas e processos, rigor e consistência. Processos bem desenhados, implementação eficiente e controle de risco não são opcionais, mesmo em um ambiente de muita inovação.
No UBS, a ênfase em gestão de capital, reconstrução e crescimento do negócio, governança e reputação reforçou que saber se posicionar no mercado, executar a estratégia com as equipes certas e desenvolver parcerias com players complementares foram fatores-chave para o sucesso.
Outro aprendizado central: liderança não é sobre consenso, mas sobre clareza de direção e capacidade de mobilização em ambientes de incerteza. Isso não quer dizer que ela não possa ser participativa. Meu estilo de liderança sempre foi inclusivo e colaborativo. Sempre trabalhei duro, e as equipes seguem o exemplo de quem lidera, mas também sempre nos divertimos juntos. Bom humor é fundamental para energizar o ambiente
Revista LIDE: Olhando para sua trajetória profissional, incluindo sua atuação em instituições como Citibank, HSBC e UBS, quais momentos foram mais determinantes para sua carreira?
Sylvia Coutinho: O primeiro momento determinante foi minha expatriação para os Estados Unidos, que abriu as portas para uma ampla experiência internacional. A partir de lá, participei de diversos projetos globais, com um aprendizado riquíssimo que dificilmente teria se nunca tivesse saído do Brasil.
E aqui gostaria de destacar algo que foi fundamental: o apoio do meu marido, que topou seguir minha trajetória, muitas vezes renunciando à própria carreira. Sem essa parceria, teria sido difícil abraçar as oportunidades que surgiram. É muito comum vermos mulheres acompanhando a carreira internacional de seus maridos; o contrário ainda é raro.
Minha experiência internacional me ensinou diferentes maneiras de lidar com mercados, problemas, oportunidades e culturas. Tive a sorte de passar um longo período nos Estados Unidos, que seguem sendo o mercado de capitais e investimentos mais sofisticado e amplo do mundo. Como fui CEO de negócios em Nova York, Canadá e mercados emergentes como China, Índia e dez países da América Latina, o aprendizado e a exposição foram enormes.
Cheguei a ter 30 mil funcionários reportando para mim na América Latina, com 2.500 agências e quatro linhas de negócio: varejo, asset management, wealth management e seguros. Também foi extremamente relevante o período à frente do UBS no Brasil e na América Latina, quando reposicionamos o banco na região por meio de aquisições e joint ventures estratégicas, culminando na compra global do Credit Suisse e na incorporação dos negócios no Brasil e na América Latina.
Além disso, destaco minha participação em conselhos de empresas e instituições como Edenred, Swiss Re, Cosan, COSAG/FIESP, Instituto Ayrton Senna, USP Endowment, FGV Agro, WRI Brasil e Young Presidents' Organization.
Revista LIDE: Que conselhos você daria para a nova geração de mulheres que almejam posições de liderança no mercado financeiro e corporativo?
Sylvia Coutinho: Destaco três pontos objetivos: desenvolver competência técnica profunda, construir reputação de execução e gestão de pessoas e assumir riscos calculados de carreira.
Também é importante evitar especialização excessivamente estreita no início da trajetória profissional. Buscar exposição a decisões relevantes e ambientes complexos faz diferença. E, principalmente, não depender de validação externa para avançar — crescimento profissional exige posicionamento claro e assertividade.
Revista LIDE: Qual é, na sua visão, o papel do LIDE Mulher no fortalecimento da liderança feminina e na ampliação da participação das mulheres nas decisões econômicas estratégicas do país?
Sylvia Coutinho: O papel do LIDE Mulher é atuar como plataforma de influência, não apenas de visibilidade. Isso significa conectar lideranças femininas a conteúdos reais de discussão e decisão, envolvendo debates relevantes para os negócios, políticas públicas e implicações para a alocação de capital.
O grupo também deve promover uma agenda concreta de formação de pipeline, métricas de progresso e pressão por uma governança mais inclusiva, quando necessário. Tudo isso é potencializado pela ampla rede local e global do LIDE, que reúne algumas das principais lideranças empresariais do país.