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Entrevista

HP vê risco de nova desigualdade corporativa na era da IA

Segundo Ricardo Kamel, empresas precisarão democratizar o acesso e o treinamento em inteligência artificial para evitar diferenças competitivas entre profissionais.

01 de junho de 2026 por Revista LIDE

Ricardo Kamel_HP-020-2 (1)Ricardo Kamel, diretor-geral da HP Brasil. (Foto: Divulgação)

A relação dos brasileiros com o trabalho atravessa um momento de transformação. Embora o país apresente indicadores mais positivos que a média global, os profissionais relatam aumento da pressão corporativa, preocupação com a qualidade da liderança e expectativas cada vez maiores em relação à flexibilidade e ao uso da tecnologia.

É o que aponta a terceira edição do Work Relationship Index (WRI), estudo global realizado pela HP para avaliar a relação das pessoas com o trabalho. O levantamento mostra que 29% dos trabalhadores do conhecimento brasileiros permanecem na chamada "Zona Saudável", índice superior ao observado em diversos mercados globais. Por outro lado, a parcela de profissionais na "Zona Crítica" cresceu para 34%, avanço de nove pontos percentuais em relação ao ano anterior.

Segundo a pesquisa, 71% dos brasileiros afirmam que as demandas e expectativas das empresas aumentaram nos últimos 12 meses. Além disso, 39% acreditam que as organizações priorizam os lucros em detrimento das pessoas, enquanto 68% gostariam de reduzir a quantidade de dias presenciais no escritório.

De acordo com Ricardo Kamel, diretor-geral da HP Brasil, os resultados mostram que a tecnologia será decisiva para a construção de ambientes de trabalho mais produtivos e equilibrados. "Para a HP, a inovação começa com o cuidado com as pessoas", afirma o executivo.

"Estamos vivendo um momento decisivo para a cultura corporativa no Brasil. Os dados mostram que a tecnologia cumprirá um papel fundamental em expandir o potencial das pessoas e já redefine a relação das pessoas com o trabalho. A tecnologia avançou, a IA já é uma realidade para 90% dos trabalhadores, mas a gestão humana precisa acompanhar esse ritmo. E é por isso que a HP já tem disponível a tecnologia que atende o usuário de diferentes perfis, de trabalhadores do conhecimento a estudantes a empreendedores."

IA avança, mas acesso e capacitação ainda são desafios

O estudo mostra que a inteligência artificial já faz parte da rotina de grande parte dos profissionais. Entre os brasileiros entrevistados, 88% afirmam que a tecnologia contribui para melhorar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Apesar disso, a pesquisa identifica uma lacuna importante entre acesso e capacitação. Enquanto 49% dos tomadores de decisão de TI utilizam IA diariamente, apenas 25% dos trabalhadores do conhecimento fazem o mesmo. O percentual de profissionais que consideram receber treinamento adequado para uso da tecnologia também caiu de 79% para 67% em apenas um ano.

Os dados revelam ainda uma forte correlação entre o uso frequente de IA e uma relação mais positiva com o trabalho. Entre os profissionais classificados na "Zona Saudável", 44% utilizam ferramentas de inteligência artificial diariamente. Na "Zona Crítica", esse percentual cai para 21%.

Para Kamel, o desafio não está apenas na adoção da tecnologia, mas na forma como ela é implementada dentro das organizações.

Geração Z redefine expectativas sobre carreira

A pesquisa também mostra que as novas gerações estão acelerando mudanças nas relações de trabalho. Entre os profissionais da Geração Z, 90% afirmam que aceitariam ganhar menos em troca de maior flexibilidade, autonomia e acesso a melhores tecnologias. Além disso, 57% já possuem uma fonte de renda complementar.

O comportamento reforça uma tendência observada globalmente: a busca por modelos de trabalho mais personalizados, equilibrados e alinhados ao desenvolvimento individual.

Empresas mais saudáveis apresentam melhor desempenho

Outro dado relevante do levantamento é a relação direta entre satisfação dos colaboradores e resultados corporativos. Nas organizações consideradas de alto desempenho, 55% dos profissionais encontram-se na "Zona Saudável". Já entre empresas com desempenho inferior, 73% dos colaboradores estão na "Zona Crítica".

Para a HP, os números reforçam uma mensagem central: o futuro do trabalho dependerá menos da tecnologia isoladamente e mais da capacidade das organizações de integrar inovação, liderança e bem-estar em uma mesma estratégia de crescimento.


O Work Relationship Index 2025 mostra um aumento da chamada “Zona Crítica” entre trabalhadores brasileiros. Na visão da HP, quais são hoje os principais fatores que estão deteriorando a relação das pessoas com o trabalho?

Os dados mostram que existe hoje uma combinação de pressão crescente, falta de equilíbrio e dificuldade das empresas em acompanhar as mudanças no comportamento dos profissionais. Muitos colaboradores sentem aumento nas demandas, menos flexibilidade e uma percepção de distanciamento das lideranças.

Ao mesmo tempo, a transformação digital acelerou muito rápido. A tecnologia evoluiu, mas a experiência humana dentro das organizações nem sempre acompanha esse ritmo.

Na HP, acreditamos que produtividade e bem-estar não podem ser tratados como temas separados. As empresas que conseguirem criar ambientes mais flexíveis, personalizados e apoiados por tecnologia terão relações mais saudáveis com seus profissionais.

O estudo aponta que muitos profissionais sentem que as empresas passaram a priorizar mais lucro do que pessoas. Como as lideranças podem reconstruir essa relação de confiança?

A reconstrução da confiança passa por coerência entre discurso e prática. Os profissionais querem flexibilidade, escuta ativa, transparência e acesso às ferramentas certas para trabalhar melhor.

Hoje, liderar exige muito mais do que gestão de resultados. Exige entender como diferentes gerações pensam e agem, criar ambientes colaborativos e oferecer experiências de trabalho mais equilibradas.

As empresas que conseguirem colocar pessoas no centro das decisões terão equipes mais engajadas, produtivas e conectadas ao propósito do negócio.

A diferença no uso diário de IA entre líderes e colaboradores revela uma lacuna importante. Existe o risco de uma nova desigualdade corporativa baseada no acesso à inteligência artificial?

Existe um risco real de se criar uma diferença competitiva entre quem tem acesso à IA e quem ainda não conseguiu desenvolver familiaridade com essas ferramentas.

Por isso, a democratização da tecnologia será um tema central nos próximos anos. Não basta disponibilizar IA para alguns grupos apenas; as empresas precisarão investir em acesso, treinamento e capacitação contínua e isso vai estar diretamente ligado ao desempenho delas. Empresas lidam com diferentes perfis em diferentes níveis de conhecimento.

A vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia em si, mas na capacidade de fazer com que mais pessoas consigam utilizá-la de forma prática e estratégica.

A Geração Z demonstra uma relação muito diferente com carreira, flexibilidade e propósito. Como isso já está impactando as estratégias das empresas e o desenho dos ambientes de trabalho?

A Geração Z acelerou uma transformação que já vinha acontecendo no mercado de trabalho. Hoje, flexibilidade, autonomia e propósito têm peso tão importante quanto remuneração para muitos profissionais desta faixa etária. No Work Relationship Index, pesquisa conduzida pela HP, 90% dos jovens brasileiros disseram que aceitariam ganhar menos em troca de flexibilidade, autonomia e acesso à tecnologia.

Isso está fazendo as empresas repensarem modelos de trabalho, experiências híbridas e formas de liderança. O escritório passa a ser um espaço de colaboração, troca e cultura, e não apenas presença física. Hoje temos cinco gerações trabalhando em conjunto, criando uma convivência inédita de pessoas com idades muito variadas no ambiente corporativo. Essa diversidade cria desafios, mas também amplia criatividade, inovação e troca de conhecimento.

A HP vem se posicionando além do hardware, como parceira estratégica da transformação do trabalho. Como essa visão vem sendo colocada em prática no Brasil?

A HP sempre foi além da oferta de dispositivos e agora passa a desenvolver experiências ainda mais completas voltadas ao futuro do trabalho.

No Brasil, isso acontece por meio de soluções que integram hardware, software, segurança, colaboração e inteligência artificial para apoiar empresas em modelos híbridos e digitais.

O país também tem papel estratégico para a HP globalmente. Temos um centro de pesquisa e desenvolvimento conectado à rede global da companhia, participando da criação de soluções utilizadas em diferentes mercados.

O estudo mostra que empresas com relações mais saudáveis tendem a apresentar melhor desempenho. O mercado finalmente começou a entender que bem-estar também é um indicador de competitividade?

Existe hoje uma percepção muito mais clara de que produtividade eficiente e duradoura depende de relações saudáveis no ambiente de trabalho.

As empresas perceberam que bem-estar, flexibilidade e acesso à tecnologia impactam diretamente engajamento, inovação e retenção de talentos. Não é apenas uma pauta de cultura corporativa – é uma pauta de competitividade.
Os dados mostram isso de forma objetiva: organizações com relações mais saudáveis entre empresa e colaborador tendem a apresentar melhor desempenho de negócio.

Em um cenário de avanço acelerado da IA generativa, qual será o diferencial das empresas que conseguirem prosperar nos próximos anos: tecnologia, cultura ou liderança?

As três dimensões serão importantes, mas a liderança terá um papel decisivo porque será responsável por conectar tecnologia, cultura e pessoas.

A IA está disponível cada vez mais disponível para as esquipes, integrando progressivamente mais processos e mais entregas. Hoje, dizer que uma empresa usa IA é o equivalente a uma pessoa dizer que na casa dela tem Wi-fi. Isso é o básico. O diferencial competitivo estará na capacidade de adaptação, na velocidade de aprendizado e na forma como as organizações conseguem preparar suas equipes para essa transformação.

As empresas que irão prosperar serão aquelas que conseguirem usar tecnologia para ampliar potencial humano, estimular colaboração e construir culturas mais flexíveis e inovadoras.