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Nova Economia

Marbella quer trocar fama de refúgio de milionários pela de polo tecnológico europeu

Cidade espanhola atrai empreendedores, amplia espaços de trabalho e aposta em startups, enquanto valorização imobiliária chega a 74% em cinco anos.

20 de julho de 2026 por LIDE

cd8cd37b-172e-4c02-8448-9c7cee98bb5aA cidade espalhola Marbella pretende se consolidar como um polo europeu de tecnologia e inovação. (Foto: Reprodução)

Conhecida pelos iates, carros esportivos, residências de alto padrão e boutiques internacionais que cercam Puerto Banús, Marbella pretende avançar além do turismo e se consolidar como um polo europeu de tecnologia e inovação. A estratégia busca transformar a cidade espanhola em uma base permanente para fundadores, investidores e profissionais conectados globalmente.

De acordo com a Bloomberg, incorporadoras e empresários trabalham com uma visão “2.0” para posicionar a Costa del Sol como uma espécie de Vale do Silício europeu, tendo Marbella como equivalente a Palo Alto. Espaços de trabalho compartilhado e escritórios começam a surgir ao lado de apartamentos, restaurantes e resorts de alto padrão.

“Estamos ajudando a mudar a narrativa em torno de Marbella, de um destino de lazer para um importante centro para profissionais modernos. Acho que o futuro de Marbella será muito diferente do que é hoje”, afirmou Christian Rasmussen, CEO do centro de negócios The Pool.

Instalado na Golden Mile, faixa litorânea que liga o centro da cidade a Puerto Banús, o The Pool recebe empresários e empreendedores europeus e do Oriente Médio. A expectativa é que a aproximação entre esses profissionais estimule parcerias e projetos capazes de gerar impacto na economia local.

Nova geração de moradores

O mercado imobiliário de Marbella era tradicionalmente impulsionado por europeus de meia-idade interessados em segundas residências. Desde a pandemia, porém, corretores identificaram uma geração mais jovem de compradores que procura imóveis para morar e trabalhar durante todo o ano.

Britânicos, escandinavos, alemães e holandeses ainda predominam entre os compradores internacionais, mas cresceu o interesse de clientes dos Estados Unidos, Canadá, Polônia e países do Golfo.

“Após a pandemia, novos tipos de pessoas e investidores, além de hotéis, chegaram a Marbella, o que elevou a qualidade do local. Antes, era apenas uma cidade bonita. Agora, é também uma metrópole”, afirmou Artur Loginov, diretor executivo da imobiliária Drumelia.

Segundo o executivo, a cidade recebeu, nos últimos quatro ou cinco anos, novas academias, marcas, hotéis e restaurantes com padrões comparáveis aos de Nova York e Mônaco.

A chegada de famílias mais jovens também impulsionou a infraestrutura educacional. Marbella, que tinha cerca de 11 escolas internacionais há quatro décadas, possui atualmente mais de 50. Entre os novos alunos estão integrantes de famílias vindas dos Estados Unidos, Dubai, Rússia e China.

“Em vez de atrair pessoas que estão prestes a se aposentar, o que se atraiu foi o talento. Não acredito que existam muitos lugares no planeta que tenham esse talento. Acho que isso é uma mina de ouro”, declarou Rasmussen.

Imóveis de marca e valorização

A transformação também aparece no mercado de residências de marca, modelo já difundido em cidades como Dubai e Miami. Rafael Nadal e Giorgio Armani se associaram para desenvolver 33 mansões, enquanto Dolce & Gabbana, Fendi e Karl Lagerfeld lançaram projetos residenciais na região.

Empreendimentos ligados a redes hoteleiras, com serviços e comodidades privativas, também começaram a ganhar espaço. A demanda já afeta outros segmentos: há restaurantes interessados em entrar na cidade, mas a disponibilidade limitada de imóveis dificulta a abertura de novos estabelecimentos.

A valorização imobiliária acompanha esse movimento. O preço médio dos imóveis à venda subiu aproximadamente 74% em cinco anos, passando de € 3.225 por metro quadrado, em junho de 2021, para € 5.608 em junho de 2026.

Construção de um ecossistema

A prefeitura trabalha com o The Pool em ações destinadas a atrair investimentos estrangeiros e promove Marbella como porta de entrada para a Europa. O município também criou o Marbellup, iniciativa para ensinar moradores a utilizar inteligência artificial, e realizou em junho o Startup Olé, evento voltado a empresas de tecnologia.

A formação de um polo de inovação, no entanto, ainda enfrenta desafios. Para Josemaria Siota, diretor executivo do Centro de Empreendedorismo e Inovação da IESE Business School, um ecossistema bem-sucedido depende da interação entre empreendedores, investidores, universidades, empresas e instituições públicas.

Na avaliação do especialista, Marbella começou a reunir muitos dos elementos necessários, mas ainda não construiu um ecossistema tecnológico plenamente maduro.

Bob van Winden, executivo que passou por empresas como Google, Stripe e Bridge, mudou-se de Dublin para Marbella depois da pandemia. Ele escolheu a cidade pela qualidade de vida, pelas escolas internacionais e pela comunidade de expatriados.

“Acho que todos esses ingredientes juntos criam um terreno fértil realmente propício para a inovação. Uma vez que você tenha o elemento essencial em mãos, desde que disponha de uma boa conexão Wi-Fi, é possível construir uma excelente empresa hoje em dia”, afirmou.

Efeitos da transformação

A chegada de capital e moradores internacionais também amplia a pressão sobre a cidade. Parte da população local relata dificuldades para encontrar moradias acessíveis e perda de espaço de pequenos comércios, substituídos por restaurantes, hotéis e grandes redes.

Marbella ainda enfrenta episódios de violência ligados a gangues e redes criminosas transnacionais. Para moradores, o desafio será conciliar a ambição de se tornar um centro de tecnologia com a preservação da identidade local, a oferta de habitação e a segurança pública.