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Tecnologia

Unicef alerta para risco do uso de inteligência artificial por crianças e adolescentes

Pesquisadores da USP ressaltam os possíveis efeitos prejudiciais da IA e destacam aspectos como sobrecarga mental e educação informativa.

06 de maio de 2026 por GABRIEL ALBUQUERQUE, DO JORNAL DA USP

20260504_criancasdesafiosiaO uso de telas potencializa muito o nível de cortisol e isso acaba deixando a criança mais estressada e mais alerta. (Foto: Magnific)

A Unicef publicou um artigo abordando a inteligência artificial generativa e como seu uso segue cada vez mais presente no cotidiano das pessoas, incluindo crianças e adolescentes, com o ChatGPT e o Gemini sendo as principais IAs utilizadas no mundo. Sua ampla adoção desencadeou diversas reações sobre os impactos da IA nas crianças e nos adolescentes, devido aos seus conteúdos prejudiciais pouco regulamentados, que incluem desde desinformação até conteúdos sexualmente explícitos. Adriele Maschesini, mestranda na Faculdade de Educação (FE) da USP e presidente do comitê Futuro do Trabalho e Educação da Associação Brasileira de Inteligência Artificial, explica os processos de aprendizado e os impactos que a IA pode causar nesses processos.

“Se a gente olhar a partir dos estágios de desenvolvimento do psicólogo Jean Piaget, o período que é mais importante para a formação da afetividade e do desenvolvimento cognitivo vai de 0 a 7 anos, que é separado por fases. A primeira é a sensório-motora, que vai de 0 a 2 anos, depois temos a pré-operatória, que está entre 2 a 7 anos, e é quando ocorre a criação da linguagem e o desenvolvimento da inteligência simbólica. Nessas fases, os sentimentos e as relações interpessoais cumprem um papel central na formação desses esquemas afetivos de desenvolvimento da criança. É um período muito sensível para o desenvolvimento cognitivo.”

“É importante falar desse contexto, porque nenhuma inovação ocorre no vácuo. Toda inovação vem dentro de um contexto complexo. Quando a gente fala de primeira infância, o risco, na minha leitura e na leitura de alguns especialistas, está no que a IA faz com o tempo e a atenção dessa criança, que deveriam estar sendo investidos nessa interação humana que é tão importante para o desenvolvimento cognitivo e afetivo dela. Quando você substitui essa experiência por uma tela, você está introduzindo uma variável que nós ainda não temos estudos longitudinais para saber os efeitos. A IA generativa ainda é uma tecnologia nova. Quando a gente olha para crianças mais velhas ou adolescentes, os riscos vão se diversificando um pouco mais, não dá para falar que é só a gerativa porque tem todo esse entorno, um monte de coisa acontecendo. Então a geração de conteúdo falso, inadequado, pode vir de IA generativa ou não, e que é consumido sem uma capacidade crítica formada, que é criado no ambiente de desinformação e de unilateralização das informações”, comenta Adriele.

A sobrecarga mental causada pela IA e o brainrot

Victor Eiji Issa, doutor em Antropologia Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, explica o conceito de brainrot e a sobrecarga mental que a IA pode causar. “Não vamos também fazer um terrorismo ao dizer que o ser humano está ficando menos inteligente, mas está havendo quedas em diversos índices e que estão preocupando os especialistas da área de Neurologia, Neurociência, Psicologia e Ciências Humanas há mais de uma década. A partir disso, a gente chega na ideia do brainrot, que é o excesso de informações. Entrando numa questão mais técnica, a tecnologia digital é um gatilho para o cérebro disparar uma série de neurotransmissores. No caso do cortisol, por exemplo, o uso de telas potencializa muito o nível de cortisol e isso acaba deixando a criança mais estressada e mais alerta.”

“A gente vê pais colocando o celular para distrair a criancinha, só que a gente não se atenta no momento que aquele entretenimento não deixa de ser processado pelo cérebro como uma informação que o faz trabalhar. Na verdade, a gente está o tempo todo jogando informações e isso cansa o cérebro, ainda que inconscientemente. Mas não é bom estimular o cérebro? Sim, mas também a questão do descanso é necessária. Em termos de aprendizagem, para nós aprendermos bem, a mente precisa estar sadia e descansada, o bombardeamento de informações está afetando o nosso foco, a nossa capacidade para estar aqui agora no momento presente”, explica Issa.

Como limitar os efeitos nocivos da IA?

De acordo com Adriele, é necessário que haja diretrizes para garantir que a IA possa ser usada de forma responsável e que respeite as realidades de cada criança. “Na infância, a gente constrói sinapses que vão desenvolver abstração, pensamento lógico, capacidade de resolução de problemas. A calculadora, por exemplo, é uma tecnologia antiga, mas nem por isso a gente leva ela para a escola quando se é pequeno para fazer as contas, porque o objetivo não é chegar no resultado. Então, depois que a gente desenvolveu a nossa capacidade cognitiva por meio dessa aprendizagem de fazer conta, a gente pode usar a calculadora. A gente tem essa capacidade. Se eu colocar na calculadora 12×2 e o resultado der 333, a gente vai saber que não faz sentido. A gente tem os elementos para questionar o resultado daquela tecnologia.”

“No caso da IA generativa, ela invadiu um recorte muito protegido, que é o da produção escrita e da leitura. Hoje, com as mídias sociais, a leitura profunda praticamente não existe. A Mariane Wolff, pesquisadora de Neurobiologia da Leitura, fala que a linguagem é aprendida pela criança por observação, se a criança está em uma família e ela vê as pessoas falando, se ela não tiver nenhum mundo impeditivo, ela vai aprender naturalmente, mas a leitura e a escrita não. Leitura e escrita precisam ser aprendidos, você precisa formar circuitos no cérebro para desenvolver essa habilidade. A regulação é uma coisa interessante, ela vem para estabelecer parâmetros básicos para um código de conduta que define o que é aceitável e o que não é. Trata-se de um instrumento de ordenação social essencial. Assim como o uso indiscriminado de telas pode ser prejudicial para o desenvolvimento da criança, o uso de telas dentro de uma estrutura pedagógica com um fim específico que estimule o desenvolvimento vai ser muito boa. Se fosse para a gente demonizar a tecnologia, a gente nem estaria escrevendo, porque a escrita é uma forma de tecnologia, ela não é uma tecnologia como a gente conhece hoje em dia, mas ela é uma tecnologia que foi inventada pelos nossos antepassados.”, explica a pesquisadora.

“A gente já tem alguns caminhos que envolvem o desenvolvimento da intencionalidade tecnológica e a mentalidade do ser humano. A gente está com a inteligência artificial generativa sendo usada por todos nós e é importante que as pessoas entendam o que é a IA generativa. Ela não é um gênio da lâmpada que tem a resposta para todas as coisas. Quando a gente está falando de criança, a gente tem que entender que a sociedade tem um papel, a escola tem um papel, mas também a educação em casa tem esse papel. Qual é o acesso que vai ser dado a essas crianças? A IA generativa hoje coloca para a educação um questionamento sobre que tipo de educação a gente está oferecendo. É uma educação informativa, que é baseada meramente na transmissão de informações, ou é uma educação formativa?”, finaliza Adriele.