Novo filme de Kleber Mendonça Filho amplia projeção internacional do cinema brasileiro
Com O Agente Secreto na disputa pelo Oscar 2026, diretor pernambucano reforça reconhecimento em festivais e consolida Recife como cenário recorrente de sua filmografia.
Kleber Mendonça Filho reforça reconhecimento em festivais e consolida Recife como cenário recorrente de sua filmografia. (Foto: Victor Juca/ Divulgação)
A cada novo filme, Kleber Mendonça Filho leva ao público internacional retratos do Brasil que fogem dos estereótipos. Em vez de imagens exóticas ou turísticas, o diretor pernambucano constrói narrativas ancoradas no cotidiano, nas tensões sociais e nas relações de classe — elementos que transformaram sua obra em referência mundial do cinema contemporâneo brasileiro.
Desde os primeiros trabalhos, como os curtas Vinil Verde e Recife Frio, Kleber já demonstrava interesse em contar histórias ligadas ao espaço urbano e à memória da cidade onde nasceu. Essa ligação se consolidou com seus primeiros longas, O Som ao Redor (2012) e Aquarius (2016), ambos ambientados em Recife e decisivos para projetar o diretor internacionalmente.
A cidade pernambucana se tornou uma espécie de personagem recorrente em sua filmografia, despertando a curiosidade do público estrangeiro e ajudando a impulsionar o reconhecimento de seus filmes em festivais importantes. O Som ao Redor recebeu o Prêmio da Crítica em Roterdã; Aquarius venceu o prêmio de melhor filme em Sydney; e Bacurau (2019), codirigido com Juliano Dornelles, conquistou o Prêmio do Júri em Cannes. Já o documentário Retratos Fantasmas (2023), dedicado à história dos cinemas de rua de Recife, circulou por festivais internacionais e entrou em listas de melhores do ano.
Agora, o diretor vive o momento de maior visibilidade de sua carreira com O Agente Secreto, escolhido para representar o Brasil no Oscar de 2026. O longa, um thriller ambientado em 1977 durante a ditadura militar, acompanha a trajetória de um homem em fuga e traz Recife novamente como cenário central. Protagonizado por Wagner Moura e Maria Fernanda Cândido, o filme venceu os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator no Festival de Cannes e tem distribuição internacional garantida.
O reconhecimento reforça a presença recente do cinema brasileiro no cenário mundial, após o sucesso de produções premiadas nos últimos anos. A atuação de Wagner Moura vem sendo apontada por veículos internacionais como uma das mais fortes da temporada, aumentando as expectativas por indicações importantes.
Para Kleber, filmar em Recife é uma escolha natural. O diretor afirma que suas histórias partem de experiências pessoais e de um olhar muito próximo sobre a realidade brasileira. Embora O Agente Secreto dialogue com elementos do cinema de gênero, ele destaca que o filme mantém uma identidade própria, distante dos modelos hollywoodianos.
A recepção internacional, segundo o cineasta, revela como um mesmo filme pode gerar interpretações diferentes. Alguns espectadores estrangeiros apontaram dificuldades em compreender referências históricas brasileiras, mas Kleber argumenta que esse tipo de lacuna também existe em produções de outros países e faz parte da experiência cinematográfica.
Ao longo de mais de duas horas e meia, O Agente Secreto sintetiza o amadurecimento artístico do diretor, combinando elementos políticos e narrativas íntimas. Kleber reconhece a importância de dialogar com o público, mas insiste que seus filmes nascem de um impulso pessoal e autoral.
O cinema ocupa papel central em sua vida. Além de dirigir, ele trabalhou como crítico e atua como programador do Instituto Moreira Salles. Sua parceria com a produtora francesa Emilie Lesclaux — também sua esposa — é fundamental para viabilizar os projetos, especialmente em coproduções internacionais financiadas com recursos públicos.
Defensor das salas de exibição, Kleber acredita que o cinema deve ser visto primeiro na tela grande. Para ele, a experiência coletiva da projeção é parte essencial do filme, enquanto o streaming deve ocupar um papel posterior na circulação das obras.
Os festivais continuam sendo, na visão do diretor, o principal motor de lançamento e reconhecimento. Cannes, em particular, permanece como ponto de partida para dar visibilidade a produções autorais no circuito internacional — exatamente o caminho percorrido por O Agente Secreto.
Mesmo com novos projetos em mente, Kleber ainda está concentrado na divulgação de seu filme mais recente. O objetivo agora é ampliar o alcance da obra e fortalecer a campanha internacional — na esperança de que o Brasil volte a conquistar espaço nas principais premiações do cinema.
*Com informações de Barbara Demerov, da Forbes